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Archive for Abril, 2010

Vi ontem no Teatro Camões, na Gala Internacional de Bailado, uma magnífica performance do Semyon Chudin, o bailarino principal do Stanislavsky Ballet, de Moscovo. Chudin entra em palco como quem vai comer a vida.  Nobre, magnético, robusto, veloz, solto, marcante, tecnicamente perfeito. Interpretou ontem em Lisboa o famoso “Le Corsaire”. É verdade que ninguém dançava o “Corsaire” como o mítico Nureyev, mas o Chudin ontem esteve brilhante.

Esmagadora foi também a coreografia “Morphoses” da Wheeldon Company do Ballet Nacional da Holanda. Drew Jacoby é uma mulher que fala com todos os músculos do corpo. Expressiva, teatral, verdadeira, forte. No corpo e no rosto. Uma coregrafia marcante que aborda a curta passagem pela vida e estranhos mundos escuros da nossa existência: os medos, os sonhos, a morte. Acompanhada em palco por Rubinald Pronk que também esteve bem, mas com a lúcida consciência de que ela é a verdadeira actracção da peça. Não é por acaso que Jacoby foi aclamada pela Revista Dance Magazine como a Deusa da Dança.

Foi uma belíssima Gala de Bailado. Parabéns à CNB!

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Um Porta-Aviões

Fui hoje estrear a nova sala de imprensa do CDS-PP. Ainda no rés-do-chão, assim que subia os primeiros degraus das escadas da sede, no Largo do Caldas, já cheirava a tinta fresca. Tudo pintadinho de branco, fazendo lembrar os muros caiados do Alentejo nesta época.

Era a primeira conferência de imprensa que seria dada neste novo espaço para o balanço dos seis meses de Governo. Estavam uns quantos funcionários a ultimar os retoques, outros a experimentar as luzes e outros ainda a testar o som.

Há um palco de madeira nobre onde fica o púlpito e ao fundo um painel azul turquesa,  todo modernaço; há uma tela no lado esquerdo para se poder projectar os números das contas centristas anti-Sócrates; a meio da parede há um enorme LCD, onde se lê em letras brancas a sigla CDS. Apenas CDS, apagando definitivamente o sufixo PP até nova viragem ideológica.

No novo CDS High-Tec já não há as velhinhas mesas de saídas de som para a malta da rádio e da tv. As saídas de som estão sob o soalho e são umas discretas caixinhas em que levantamos a tampa e ligamos o cabo de gravação jack directamente à fonte. Pode ser gravação em linha ou em micro. Uau! Nós é que escolhemos! Caramba, tanta tecnologia.

No lado oposto ao palco há um espaço que serve de sala de imprensa: várias mesas colocadas em “U” e dezenas de cadeiras para os jornalistas trabalharem e dali enviarem as reportagens. É evidente que todo o espaço é wireless. Acessível a todos gratuitamente, claro.

Obras de vulto, de encher o olho, mas bem feitas, bem pensadas. Isto de ser o terceiro maior partido português tem que se lhe diga. Esta versão do CDS High-Tec deve ser cara. Ainda perguntei se seriam obras ainda resultantes das contrapartidas… Houve sorrisos, sem hard-feelings, mas ninguém me respondeu. Mas que é um porta-aviões, lá isso é!

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Eu nasci depois do 25 de Abril de 1974.

E sempre ouvi dizer aos mais velhos que nós, geração pós-Abril, nem imaginamos a nossa sorte por não termos vivido naqueles tempos de ditadura. Que não sabemos o que são as verdadeiras dificuldades da vida. Que naqueles tempos é que era difícil. Que estamos tão habituados à liberdade, que já não lhe damos valor. E a enjoativa frase “isto está bom, é para vocês” que aniquila qualquer remota hipótese de continuar a conversa. Sempre franzi o sobrolho, em silêncio, quando ouvia estas palavras.

“Está bom é para nós”, pois está… Hoje temos facilidade em arranjar emprego. Hoje temos valorização e reconhecimento profissionais. Hoje temos ensino qualificado e professores estimulados. Hoje temos boas escolas públicas, bem equipadas, bem protegidas. E temos boas universidades públicas, dotadas de bons equipamentos, acessíveis a todos os que optem pelo público. E temos saúde gratuita com um bom serviço nacional de saúde, sem necessidade de recorrer ao estrangeiro ou a seguros privados de saúde. E serviços de urgência e maternidades que respondem às necessidades da população portuguesa. Já para não falar da justiça, universal e ao alcance de todos.

E o que é que fez mais Abril? Ah, claro, acabou definitivamente com a censura. Pois sim… Hoje temos liberdade de expressão, liberdade de informação e imprensa livre…

Era bom, não era?

É impressão minha ou não foi bem para isto, como estamos, que fizeram Abril? Ou há alguma coisa que me está a escapar?

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Esta é a minha comovida homenagem, este ano, ao 25 de Abril. Que foi uma revolução e um levantamento popular, e não apenas o golpe de militares generosos e corajosos a que muitos hoje o querem reduzir. E que outros, com um suspiro, desejariam que tivesse sido apenas um processo pactado de transição política à espanhola.

Mas houve mesmo revolução neste canto mais ocidental da Europa, com um processo de intensas transformações políticas, económicas e sociais. Em que todos aprendemos a libertar a palavra e o gesto, a ocupar o espaço público, a confrontar livremente ideias e projectos, a conquistar e defender direitos, nas fábricas, nos campos, nas escolas, nas ruas.

Esse PREC que alguns agora pintam de cores sombrias,  mas que foi afinal um processo criativo de participação, de festa, de aprendizagem democrática e cidadã, certamente também de luta e conflito de interesses e ideias, de tentativa e erro no processo de construção da nossa democracia. E que significou a elevação dos padrões de vida dos trabalhadores, de conquista de direitos sociais e políticos que ainda hoje perduram, de descolonização, duma mais justa distribuição da riqueza depois posta em causa pelas políticas protectoras e recuperadoras dos grandes interesses económicos que converteram hoje Portugal no mais desigual da União Europeia.

Se o 25 de Abril foi uma revolução inacabada, vale a pena celebrar hoje não apenas o que foi, mas também a herança democrática de direitos que permanecem, e a modernidade dos seus valores e ideais para moldarmos um futuro melhor. Com a confiança e esperança de que somos muitos, novos e velhos, que não deixarão que suceda à II República de hoje, nos tempos difíceis que vivemos, o que sucedeu à I República, afundada numa ditadura de 48 anos, porque apodreceu nas suas divisões,  na sua corrupção e na sua incapacidade de cumprir os seus ideais e promessas.

 Já agora, eu sei que alguns consideram o regime fascista do Estado Novo como a II República, só que faço parte dos muitos que concebem como essencial ao conceito contemporâneo de república a ideia e prática da liberdade. Não vejo como conceber a ditadura como república, ainda mais quando me recordo da perseguição que aquela sempre fez à simples celebração do 5 de Outubro pelos democratas oposicionistas.

Celebremos, então, o 25 de Abril, entre amigos, com um copo de bom vinho, com muita fraternidade e muita música.

Como contributo pessoal para a festa, aqui fica uma bela canção do grande cantor catalão Lluis Llach de homenagem ao 25 de Abril português, editada em 1975, no ano do falecimento do ditador Franco e cantada quando o franquismo sem Franco ainda tentava resistir à perda do poder político e a nossa Revolução dos cravos inspirava o povo espanhol no seu combate pela democratização, concretizada com as primeiras eleições livres e os pactos de Moncloa em 1977. É uma sugestão e uma escolha partilhadas com a minha filha Marta,  que a considera um dos mais belos cantos de celebração de Abril.

Texto na versão castelhana do belo poema desta canção:

ABRIL 74
Compañeros, si sabéis donde duerme la luna blanca
decidle que la quiero
pero que no puedo acercarme a amarla
porque aún hay combate.

Compañeros, si conocéis el canto de la sirena
allá en medio del mar,
yo me acercaría a buscarla
pero aún hay combate.

Y si un triste azar me detiene y doy en tierra
llevad todos mis cantos
y un ramo de flores rojas
a quien tanto he amado.

Compañeros, si buscáis las primaveras libres
con vosotros quiero ir
que para poder vivirlas
me hice soldado.

Y si un triste azar me detiene y doy en tierra
llevad todos mis cantos
y un ramo de flores rojas
a quien tanto he amado.
Cuando ganemos el combate.

Lletra
Lluís Llach

Música
Lluís Llach

Edició
1975

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Valise en carton

Já pouca coisa me surpreende ou irrita na política nacional. Mas confesso que ainda há situações que, digamos, me causam alguma azia.

O vaivém Paris-Lisboa-Paris circulará todas as semanas com uma passageira regular que beneficia a partir de agora de um passe mensal gratuito, com direito a café e bolinhos, pago integralmente pelo orçamento do Estado. O bónus, ganhou-o a ilustre passageira não numa rifa de feira – e até podia ter sido – ou num concurso televisivo, mas numa qualquer reunião partidária, quando o aparelho do seu partido a escolheu para ser candidata por Lisboa à Assembleia da República. Por Lisboa, repito, e não pelo círculo da Europa.

A senhora não tem culpa de não ter residência no círculo eleitoral pelo qual foi eleita. É um facto. A senhora também não tem culpa de morar em Paris e ter arranjado trabalho em Lisboa. Mas eu também não tenho culpa! E eu é que vou pagar!

Fazendo as contas a esta despesa extra que vou ter de pagar com os meus impostos, temos que a senhora me vai custar por mês qualquer coisa como 6 mil euros. Ou seja, 72 mil euros por ano. E, partindo do princípio de que vai cumprir todo o mandato, vai custar 288 mil euros só nesta legislatura.

Convenhamos que, nesta época de apertos, se comprássemos um bilhete só de ida numa lowcost para Paris aí por uns 30 euros e convidássemos a ilustre passageira a embarcar, a festa sairia mais baratinha. E para não pensarem que é de mau tom este convite, garanto que até lhe oferecia a mala para a viagem. Baratinha, a condizer. Mas chique. Afrancesada, vá.

 

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Que me perdoe o José Mário Branco por assim lembrar e adaptar o texto de uma das suas mais belas canções para saudar uma nova História de Portugal cujo primeiro volume acaba de ser editado. Não a agora tão publicitada obra do historiador Rui Ramos (também mediático comentador político da direita lusa).

Falamos da “História de Portugal” da autoria de um dos maiores historiadores portugueses, António Borges Coelho, cujo primeiro volume (“Donde Viemos”), dedicado às origens do país, abrange o período desde o início da ocupação humana da Península Ibérica até à presença romana, à civilização árabe do Al-Andalus e ao início da “reconquista” cristã.

É uma lição de história viva. Uma narrativa apaixonante, que se lê de um fôlego, e que mostra a capacidade do autor de associar o rigor da investigação com a vivacidade e qualidade literárias da exposição, combinando a permanente perspectiva global com o pormenor e o testemunho dos viventes do tempo histórico que analisa. Cuja leitura nos prende numa teia de encantamento como se fora música e romance.

Parabéns ao meu querido amigo Borges Coelho por mais este notável livro a somar à sua vasta bibliografia, e por mais este testemunho do seu infatigável labor na interrogação do mundo e da vida, em que sempre tem sabido aliar o seu qualificado contributo intelectual com o activo e comprometido testemunho cívico ao lado dos humilhados e ofendidos.

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A tua mão esquerda, a mais poderosa das tuas mãos, e as tuas veias esquerdas, as mais poderosas das tuas veias, têm chama.  Têm força. Têm alma. E falam.

Ditou a sorte ou o azar, que nunca sei qual deles vence, que te limitassem a direita. Nunca esperaste muito dela, de qualquer modo. Livre está a esquerda.

A tua mão esquerda. Livre.

Não sei se a ergues ou se a empunhas. Se por estes dias de Abril a acaricias com cravos. Sinto que, simplesmente, a deixas respirar, libertar-se, reflectir, falar, escrever, sentir. Ser livre.

Como bem se percebe, tinha razão quando dizia que isto sem ti não tinha graça nenhuma! Agora sim, começa a ter graça.

E estás mesmo aqui à mão.

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