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Archive for Junho, 2011

Há um ano tive quase essa experiência em São Petersburgo, na Rússia, quando em Agosto ainda apanhei as românticas noites brancas. E já nessa altura fiquei impressionada.

Hoje não havia nuvens no céu e decidi ficar à espera da meia-noite. Sem relógio, sem pressas, sentidos despertos, com os olhos postos no céu.

Vesti um casaco quente, despejei café a ferver numa enorme caneca e sentei-me a contemplar.

É um azul, um cinzento, um prateado. É um rosado pingado junto ao mar. É um amarelo torrado entre as nuvens. E as nuvens mestiças cinzentas e rosa. E lá ao fundo as montanhas. Brutas, pálidas, brancas, brilhantes, imperiais, soberbas, exageradas. E a neve, delicada e sensível. E o sol da meia-noite metediço. E é o mar adormecido, contemplativo. E eu. Eu e o silêncio. E aquele sol que me espia entre as nuvens. E o mar que me escuta os gemidos. E o vento que parece querer dançar.  Haverá mais bela criação da natureza?

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Na primeira vez achei estranho. Chegámos a casa da Mara e do Ethan e havia um recado pendurado na porta com fita-cola: “take your shoes off before you enter!” Pensei que andavam em limpezas e assim o fizemos. Descalçámo-nos à porta. Entrámos e não havia sinal de limpezas. Coisa mais esquisita, estranhei.

No dia seguinte fomos convidados para uma festa de aniversário. Festa é festa e por isso arranjámo-nos à altura: bem vestidos, perfumados, arranjados, chegámos pontualmente e a porta estava entreaberta. Entrámos. “Hello! How are you?” Entre sorrisos e cumprimentos olho de soslaio para o chão e, no corredor da entrada, havia um mar de sapatos. Toda a gente descalça. Tivemos que tirar os nossos.

Embaraçosa situação. Gente com ar de festa, colares, perfumes, brincos, brilhos… Sem sapatos. Lá pude ver a meinha azul do dono da casa, a peúga de riscas do vizinho, a meia branca do ambientalista, os calos da juíza.

Hoje aconteceu o mesmo. Numa reunião de trabalho, um advogado recebeu-nos em casa e assim que abriu a porta, estremeci. Lá estava o raio do monte de sapatos no corredor a exigir a companhia dos nossos.

Eu até gosto de andar descalça, e até acho que tenho os pés bonitos mas como é que se consegue fazer uma entrevista ou manter uma conversa como deve ser, sem inibição ou desconforto com esta situação? Ou sem a sensação que há um cheiro típico no ar? Ou, pelo menos, sem ter a tentação de olhar para as meias dos outros, a ver quem tem o imprevisível, fatal e humilhante buraquinho na ponta do dedo?!

 

 

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São mulheres bem vestidas com um na mão. São homens que correm na rua com um na mão. É uma criança de ascendência asiática sentada no chão entretida com um. Três jovens na esplanada, na Happy Hour, cada um com o seu. Não conversam, teclam e ouvem música. A Conferência, na sala de formação, é dada com um na mão.
Washington está rendida aos “I”: Iphones, Ipads, Ipods, I, I, I…
Aqui ninguém sabe o que é um Nokia? Nok-what? Inokia? A new Imodel? Sinto-me uma info-excluída.
Não há que enganar. Quem manda em Washington não é Obama. É o homem da Apple, Steve Jobs. E, que me perdoem os nova-iorquinos, Nova Iorque já não é a Big Apple. A verdadeira Big Apple é a cidade de Washington!

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O ex-líbris (da ideologia neoliberal deste Governo) é a muito badalada “desvalorização fiscal”, que constitui, no dizer de Passos Coelho, “uma aposta decisiva na reaquisição de competitividade externa, de crescimento no sector de bens não transaccionáveis, mas também na criação de emprego, ao diminuírem a penalização fiscal do trabalho”. Ora para que não haja confusões com as palavras, a redução da Taxa Social Única não diminui os encargos dos trabalhadores; diminui os encargos dos patrões para a Segurança Social – e é bom que isso não seja mistificado. Essa redução terá de ser compensada por um aumento do IVA para não desequilibrar a Segurança Social.

Em segundo, a redução da TSU tem forte impacto em sectores de mão de obra intensiva mas muito pouco nos sectores mais inovadores, que produzem bens de maior valor acrescentado, e que são precisamente aqueles que é necessário apoiar para fazer cfrescer o secttor de bens transaccionáveis. Em terceiro, uma descida da TSU (e não apenas para as exportadoras) vai permitir a muitas empresas ganhar um balão de oxigénio para continuarem a operar, de forma ineficiente, no mercado interno – e vai ser canalizada para aumentar lucros e não para reinvestimento, como é evidente. E em quarto lugar, se à descida da TSU juntarmos a flexibilização do despedimento individual e a descida das indemnizações, torna-se óbvio que o que está em curso é uma orientação política que visa desequilibrar os pratos da balança a favor do capital e em detrimento do trabalho (sublinhado nosso). Que destas medidas resulte uma economia muito mais eficiente, criando empresas altamente competitivas, gerando inúmeros empregos e forte crescimento é algo que está por provar. 

Não há dúvidas: o tio Friedman vem visitar-nos e vai ficar por cá algum tempo. Quanto, eis a questão.

Não. Este texto não é nosso. Mas podemos subscrevê-lo. É um alerta demolidor da demagogia reinante sobre uma das medidas mais criminosas do programa neoliberal da troika. Faz parte do lúcido artigo assinado pelo insuspeito Nicolau Santos no suplemento de Economia do semanário Expresso, sob o título O tio Friedman vem viver connosco. Tem mais. Vale a pena lê-lo todo. E perguntarmos por que razão este competente jornalista e comentarista de questões económicas continua a defender a aplicação do programa da troika, em que se inscrevem medidas que assim critica. Pressão do ambiente?

A propósito: e nós, vamos todos deixar que as coisas aconteçam assim, e embarcamos na conversa da treta que nos impingem de que temos que ser obedientes e bem comportados, e que nada temos a ver com aqueles gregos, maus vizinhos e maus exemplos?

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Apelo a Iniciativa Unitária por uma Auditoria à Dívida Portuguesa

A austeridade e as medidas de privatização pressionam em primeiro lugar os mais pobres, enquanto as “ajudas” são para quem está na origem da crise. Se as medidas de austeridade anti-popular não forem postas em causa, terão um impacte considerável na Europa durante muitos anos, modificando de forma drástica a relação de forças em favor do capital e em prejuízo do trabalho.

A auditoria da dívida é um passo concreto em direcção à justiça em matéria de endividamento. As auditorias da dívida com participação da sociedade civil e do movimento dos trabalhadores permitem determinar que partes da dívida são ilegais, ilegítimas, odiosas ou simplesmente insustentáveis; oferecem aos trabalhadores o conhecimento e a autoridade necessários para a definição democrática de políticas nacionais perante a dívida; incentivam igualmente a responsabilidade, a prestação de contas e a transparência da administração do Estado.

É urgente, neste contexto, a constituição de uma Comissão Popular, aberta e de convergência unitária, para uma Auditoria à Dívida portuguesa. Subscrevem este apelo, sinalizando a sua disponibilidade para o desenvolver na prática, um conjunto de activistas sindicais, de comissões de trabalhadores e de organizações cívicas, associativas e políticas.

Subscritores/as:
Manuel Carvalho da Silva (secretário geral da CGTP-IN, Lisboa), António Avelãs (presidente do SPGL), Pedro Ferreira (economista, Coimbra), Guadalupe Simões (Enfermeira, Faro),Elísio Estanque (universidade, Coimbra), Rui Maia (Precários Inflexíveis, Lisboa), Adriano Campos (FERVE, Porto), Paulo Granjo (universidade, Lisboa), José Rodrigues (sindicalista),José Castro Caldas (universidade Coimbra), Jorge Bateira (economista, Porto), Francisco Alves (sindicalista, Lisboa), Maria da Paz Campos Lima (socióloga, Lisboa), António José Vitorino (bancário, Almada), Joaquim Piló (sindicalista), Viriato Jordão (Lisboa), José Almeida (sindicalista, Lisboa), Guilherme da Fonseca Statter (sociólogo do trabalho), José Rebelo (universidade, Lisboa), Manuel Carlos Silva (professor, sindicalista), Isabel Frutas Carvalho Ascenção (SERAM-Madeira), Janine Rodrigues (enfermeira, SERAM Madeira),Artur Oliveira Baptista (sindicalista, Lisboa), Carlos Valdez Vasconcelos (professor, Lisboa),Carolina Fonseca (trabalhadora, Lisboa), Lídia Fernandes (feminista, Lisboa), Cristina Oliveira Nunes (socióloga, Lisboa), Marco Marques (Precários Inflexíveis, Lisboa), Almerinda Bento (professora, Amora), Manuel Zebral (desempregado, Galiza), Dora Fonseca(Universidade, Porto), Maria da Conceição Sousa (enfermeiro, C. Branco), António Pedro Dores (universidade, Lisboa), Assunção Bacanhim (sindicalista, Funchal), Manuel Martins(CT Autoeuropa, Palmela), Bruno Semeano (CT Faurécia, Palmela), Deolinda Martin(professora, Amadora).

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Com autorização do meu amigo  Nuno, aqui ficam as suas impressões pessoais de uma breve e primeira visita que fez com a família à Irlanda. Valem como um testemunho e um olhar impressivo sobre a vida e os costumes de um país que também foi colocado na lista dos PIGS e no epicentro da crise. São impressões certamente limitadas pela circunstância da viagem (curta) e de uma primeira descoberta, que não dava para conhecer a extensão da crise e o seu real impacto na vida das pessoas. Mas vale pelos pormenores e pela percepção de alguns contrastes dos estilos de vida, a cultura, os costumes. E, no conjunto, como assinala, não ficamos a perder na comparação quanto à qualidade de vida. Porque há mais vida para além do PIB, do défice, da dívida. Existem as pessoas. E é da descoberta da vida das pessoas em Dublin que tratam as notas pessoais desta viagem, que o meu amigo entendeu partilhar. A vida (também) é feita da partilha destes pequenos nadas.

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Olá, Henrique.

Muito obrigado por este guia que foi de grande utilidade. Visitámos a maior parte dos lugares mencionados, embora com a limitação de levarmos os miúdos. Devido aos preços não andámos a comer fora, embora tenha dado para um almoço no Bewley’s, que é um sítio lindíssimo na Grafton Street.

PASSEIOS:

As visitas a museus e galerias são complicadas por causa do miúdo. Ainda é muito pequeno e, como viste, não para quieto nem calado, é endiabrado. Passou todo o tempo em Dublin numa agitação enorme, só queria andar na rua a observar tudo.

Não visitámos a Guiness Storehouse porque nos disseram não ser interessante o suficiente para o preço que cobram (só um aparte, a fábrica da Guiness ocupa um quarteirão inteiro!). O tempo não permitiu ir fazer um piquenique ao Phoenix Park, como eu tencionava. Esteve quase sempre a chover. Fomos até à Kilmainham Gaol, que toda a gente me recomendava como uma excelente visita, mas fomos aconselhados na receção a não entrar, porque é uma visita guiada de uma hora e o miúdo ia de certeza fazer-nos a vida negra. Paciência, fica para a próxima.

Visitámos o National Leprechaun Museum, onde ouvimos os antigos mitos celtas fundadores da identidade Irlandesa. Visitámos Dublinia, uma exposição sobre a história de Dublin desde as primeiras incursões vikings até ao século XVII, quando se acentuou a tirania inglesa. Daí há uma ponte decorada com vitrais até à Christchurch, que vale a pena visitar pela beleza e interesse histórico. Estas visitas foram muito do agrado dos miúdos.

Na Trinity College fomos ver o famoso Book of Kells e as suas iluminuras. Depois fomos até à Old Library, que é um espetáculo, com 200.000 livros e uma série de objetos macabros, como instrumentos cirúrgicos e esqueletos humanos. Aliás, os irlandeses têm um certo gosto pelo macabro e humor negro.

Visitámos o castelo, que não tem nada de especial, e fomos à National Gallery. Aí vimos uma exposição de fotografia sobre a Irlanda do Norte nos anos 70. Não conseguimos ver a exposição permanente por causa do miúdo, que estava de mau humor. Num edifício anexo estava uma exposição de Frida Kahlo e Diego Rivera. Mas depois de ter visto a exposição dela no CCB, esta deixou muito a desejar. O edifício consiste numa série de pequenas salas brancas repartidas por diversos andares. Andar a subir e descer escadas para ver salas apertadas e sem graça com dois ou três quadros não constituiu uma grande experiência.

Uma boa parte da viagem foi passear pelas ruas de Dublin e apreciar a atmosfera. É tudo plano e anda-se muito bem a pé. O tempo estava ventoso e frio. Num momento está um sol radioso, em 20 minutos começa a chover. Depois fica um grande sol outra vez. É assim durante o dia todo. O norte da cidade, onde nós dormíamos na James Joyce Street, é mais operário. Veem-se muitos bêbedos na rua porque há uns bairros sociais por ali. Há imensos imigrantes, especialmente polacos. O sul está cheio de casas chiques e é mais limpo.

Não saímos da cidade. Os nossos amigos portugueses queriam levar-nos a uma vila piscatória a norte de Dublin, mas no sábado estava a chover. E ia ser uma viagem demorada, porque as linhas férreas e estradas por lá são mais atrasadas do que as nossas. Viajar entre duas cidades leva horas, de autocarro ou comboio.

DIVERSÃO:

Uma noite, deixámos os miúdos à guarda dos nossos amigos e fomos ao Temple Bar, o Bairro Alto de Dublin (embora mais pequeno). A seleção escocesa esteve lá a jogar e estava tudo cheio de tipos de kilt de cerveja na mão. Pelos vistos os escoceses e irlandeses adoram-se, porque estavam todos juntos em alegre comemoração. O bairro tirou o nome de um velho pub (o próprio Temple Bar) onde estivemos a beber uma Guinness e apreciar música tradicional irlandesa ao vivo. Excelente ambiente, mas já se notavam uma grandes bebedeiras que não sei no que é que deram depois de sairmos.

Os nossos amigos portugueses dizem que, ao contrário dos britânicos, que só saem ao fim de semana, os irlandeses bebem todas as noites no pub. Dá para ver alcoólicos por todo o lado, tal como nós tínhamos os heroinómanos nos anos 80 e 90. De manhã já se vêm grupos de pessoas à porta dos supermercados a beber qualquer coisa que tenha álcool. Estas mesmas pessoas fazem fila à porta das delegações da Segurança Social espalhadas pela cidade.

MODO DE VIDA:

O ambiente para trabalhar é ótimo, ganha-se muito bem e há uma cultura do respeito pela vida privada que nós não temos. Aqui, a mentalidade é que os empregados têm que estar 24 horas ao serviço de todos os caprichos do patrão. Lá, as empresas fecham as portas às 5 e toda a gente tem que sair. Tem piada, porque nós, com a nossa mentalidade de escravos, somos menos produtivos e mais pobres do que eles, que trabalham menos horas. Os amigos portugueses que nos acolheram não querem voltar para Portugal. Digamos também de passagem que aquilo beneficia muito de ser um paraíso fiscal para as multinacionais…

Quanto à crise, ninguém dizia sentir crise nenhuma, nem vi qualquer sinal dela. Pelo que me contaram, a crise teve um impacto muito reduzido na vida dos irlandeses.

Não é possível andar sempre a comer fora porque é caríssimo. Comprámos comida e cozinhámos. Tive a agradável surpresa de verificar que os produtos à venda nos supermercados são todos de boa qualidade. E são todos irlandeses, ao contrário dos nossos que são importados. Na Escócia tinha tido uma má experiência com a comida. Lá, os produtos à venda nos supermercados são horríveis e a carne, especialmente, é uma porcaria. Felizmente na Irlanda é completamente diferente.

As ruas estão sempre cheias de gente, de manhã à noite. Os irlandeses são educados, calorosos e prestáveis, em contraste com outros povos do norte da Europa, principalmente os ingleses, de quem não tenho boa impressão. Os irlandeses têm sempre uma piada ou um trocadilho para dizer e fartavam-se de rir sempre que eu entrava no jogo e fazia também uma piadinha.

Há referências aos heróis irlandeses por todo o lado. Também têm um orgulho enorme nos seus escritores (que, confesso, nunca li, exceto o Bram Stoker) e têm monumentos por todo o lado dedicados a eles. O Obama tinha saído do país no dia anterior à nossa chegada. Havia retratos dele por todo o lado e as lojas e restaurantes tinham um “desconto Obama”. Da rainha de Inglaterra, que esteve lá na mesma altura, nem sinal.

Há dois tipos de irlandeses que parecem vir de planetas diferentes: As pessoas normais, que são impecáveis, e os xungas. O contraste é enorme. Enquanto os primeiros andam a tratar da sua vida, os segundos reúnem-se à porta dos supermercados a beber, a discutir uns com os outros, insultar os polícias e urinar nas esquinas. Gente de todas as idades e sexos, com a tatuagem barata no pescoço, o fato de treino e o cigarrinho, elas com o carrinho de bebé. Creio que isto são restos do horrível sistema de dominação inglesa, em que os católicos estavam impedidos de estudar, exercer profissões ou possuir terra.

COMPARAÇÃO COM LISBOA:

Apesar de ter gostado muito da visita, fiquei com a sensação que a Irlanda não é assim tão desenvolvida. Os interiores das casas são pobres, comparados com os nossos. Os acabamentos e os equipamentos são maus, e nós estivemos numa casa nova, num sítio chique. Os museus deles não são nada de especial, acho que Lisboa tem mais oferta turística, histórica e cultural. Temos melhores transportes e o acesso ao resto do país é muito mais fácil. Pelo que me disseram, a paisagem rural irlandesa é bonita, mas toda igual. Portugal fervilha de diversidade. Se nos promovêssemos como eles fazem, teríamos muito mais para oferecer. A diferença é que eles exaltam tudo o que têm com um orgulho enorme e criam enormes expetativas, enquanto os portugueses estão-se borrifando.

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Nicolau Santos é um jornalista económico bem preparado e que produz comentários informados. A sua página no suplemento de Economia do Expresso de 18 de Junho é paradigmática da dificuldade de alguns analistas mais lúcidos em tirar as consequências lógicas de um diagnóstico que não os distingue dos economistas que criticam a orientação do programa da troika e dos receituários neoliberais do FMI e de uma União Europeia a naufragar na tempestade que alimenta. Diz no seu texto intitulado A Europa é estúpida e cega ?:

“…imaginar que a recusa da reestruturação (da dívida)  evita algo pior é do puro domínio do delírio. A situação agrava-se dramáticamente todos os dias, mesmo sem reestruturação. E nada travará o caminho para o abismo que a Grécia está a ser obrigada a trilhar (e a que se seguirá Portugal e a Irlanda, pelo menos) se os países do euro e as instituições europeias não se puserem de acordo sobre a estratégia a seguir. Hoje é cada vez mais óbvio que só os eurobonds poderiam ter travado este caminho para o inferno. Talvez já seja tarde de mais. Agora, a reestruturação rápida e controlada parece ser o passo seguinte, apesar de tudo, mais eficaz e com menos riscos. Mas se as contradições se arrastarem… é o próprio euro que está em riscos de implodir.

E Portugal? Portugal não tem outra possibilidade senão cumprir religiosamente, ponto por ponto, item por item, todas as alíneas do acordo que foi assinado com a troika…O cumprimento do acordo será uma condição indispensável mas não suficiente para evitar que nos tornemos uma nova Grécia…”

Em resumo: quem toma partido pela reestruturação imediata da dívida  e com lucidez condena as receitas da UE para a crise nos países periféricos, que conduziu já ao desastre e à humilhação da Grécia, é quem também manifesta a cegueira de defender que Portugal ponha a cabeça no cadafalso do programa da troika que nos conduz ao mesmo fim. É obra. A gente sabe que é difícil um director-adjunto do Expresso poder ir mais longe na análise. Mas uma conclusão assim, que contraria as premissas, senhor?

Nicolau Santos parece padecer do mesmo problema dos analistas do Economist, que já proclamavam na sua edição do passado dia 11 Junho:

Seria muito melhor reconhecer a realidade e começar uma reestruturação ordenada da dívida grega agora. Que continua a ser a única solução. Os alegados salvadores da Grécia fariam bem em lembrar-se que quando se vai chutando uma lata durante muito tempo pela estrada fora, ela acaba amassada e quebrada (tradução nossa)

Pois. Este é o problema dos que chegam sempre demasiado tarde às conclusões. E fogem como o diabo da cruz de questionar a causa das coisas, a raiz do desastre e o respeitinho pelos mercados financeiros que vai produzindo a desgraça dos países e das pessoas. A pressão deveria ter sido feita sobre os eurobonds e uma verdadeira e solidária política europeia de combate à crise e não foi. Agora, deveria ser sobre a reestruturação da dívida e a mudança de políticas da UE e não sobre um programa que nos leva para onde está a Grécia.

Aqui fica um vídeo integral realizado por jornalistas gregos sobre a crise na Grécia, as suas causas e as alternativas, com legendagem em espanhol. É longo, mas vale a pena. Para percebermos também como a treta de que Portugal é diferente da Grécia ou da Irlanda, porque nós somos honestos,trabalhadores e não mentimos, é uma narrativa dos poderosos para anestesiar e dividir.

Para quem preferir a opção de legendagem em português, existe uma versão com o inconveniente de ser segmentada em partes de cerca de 15 minutos cada (ver, a título de exemplo, aqui)

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