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Archive for Agosto, 2011

Vale a pena ler o interessante trabalho da jornalista São José Almeida no Público de hoje sobre o sindicalismo contemporâneo, iniciativa que se saúda, tanto mais que é matéria normalmente ignorada pela imprensa.

Nele se suscitam questões habitualmente esquecidas como a correlação existente entre os níveis de sindicalização, a redução das desigualdades salariais e sociais e a negociação colectiva, ou o problema em aberto da representação sindical dos trabalhadores precários e dos falsos “recibos verdes”.

A meses do Congresso da maior confederação sindical portuguesa – a CGTP-IN – importa todavia ir além do diagnóstico das dificuldades actuais dos sindicatos decorrentes das mudanças estruturais e nas configurações do trabalho e do assalto neoliberal, suscitando o debate mais difícil, mais exigente e mais necessário:

Que fazer para que os sindicatos consigam contrariar o definhamento da sua organização e sindicalização, consigam aumentar a sua capacidade de representação dos trabalhadores e se afirmem de modo mais eficaz, coeso e convergente no combate pelos seus direitos e para o reequilíbrio de uma balança política e social de poderes profundamente assimétrica em favor do capital? Que renovação de processos, de organização, de acção e de orientação é preciso para que, preservando o seu carácter essencial de organizações solidárias de classe dos trabalhadores, alcancem patamares mais elevados e necessários de participação, de democracia e de mobilização nestes tempos de globalização que corroem solidariedades, individualizam, complexificam e segmentam o trabalho, condicionam os quadros tradicionais e nacionais do conflito e da negociação laboral, acentuam a chantagem sobre os direitos e o emprego em nome da competitividade transnacional?

O Manifesto subscrito por 58 sindicalistas e investigadores sociais, e o Seminário internacional que estes organizaram e que, em Junho passado, reuniu em Lisboa cerca de 130 sindicalistas, activistas de CTs e de movimentos do precariado e elevado número de investigadores sociais, foram um promissor contributo para esse debate necessário. Que apenas começou. Que importa prosseguir, fora e dentro das organizações sindicais, para que o mundo do trabalho saiba responder à ruptura do contrato social nas democracias liberais, desencadeada pelos neoliberais empunhando a sagrada bandeira dos “mercados”.


Sindicatos Fazem falta e recomendam-se
Por São José Almeida
Edição Público Lisboa
29 Ago 2011

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A entrevista hoje divulgada pelo Público é um testemunho e um ponto de vista conhecedor de Edmundo Martinho,  que foi até agora Presidente do Instituto da Segurança Social, sobre o processo em marcha de assalto ultraliberal ao Estado Social e de conversão da Segurança Social pública num projecto assistencialista em que os direitos se tornam caridade.

Uma entrevista oportuna, para o necessário sobressalto público que tarda sobre o assalto em curso ao magro e tardio Estado Social que o 25 de Abril ainda possibilitou instaurar em Portugal. É que os recursos públicos da Segurança Social são há muito fruta apetecida para o capital financeiro e para um poder político sem escrúpulos disposto a usar o que não lhe pertence nem para o que tem mandato.

Vejam-se os dados recentemente divulgados sobre o controlo orçamental dos primeiros sete meses do ano (ver aqui a interessante análise e os dados coligidos pelo especialista de Finanças Públicas, Paulo Trigo Pereira), em que se evidencia que o Estado transferiu para a Segurança Social menos 586,6 milhões do que no mesmo período de 2010, verba que deveria ter entregue sobretudo para a cobertura dos regimes não contributivos, que legalmente devem ser suportados pelos impostos pagos por todos e não pelas contribuições sociais retiradas dos salários.

Atente-se também na negociata em marcha entre Governo e banqueiros para que estes alijem para cima do Estado a carga dos fundos de pensões dos trabalhadores bancários, cuja carga os incomoda porque envolvem direitos e garantias para os trabalhadores bancários muito superiores aos PPR que nos andam a querer vender. O Governo recebe agora a cenoura de uns milhões para suportar depois ao longo de gerações, com os impostos e contribuições de todos nós, encargos muito maiores. Como se suspeita estar já a acontecer com as negociatas apressadas anteriormente feitas com os fundos de pensões dos CTT, da PT e da CGD, responsabilidade de governos deste bloco central de interesses que tem infernizado as nossas vidas.

Tudo isto e o mais que se sabe e adivinha, reconheça-se, sem que a maioria dos portugueses tenha ainda manifestado aprender a lição. Até agora.

Claro que, para este Governo ultraliberal, que faz do “mais além” a sua divisa, este é o caminho que lhes serve. Matam assim dois coelhos de uma só cajadada: degradam a situação financeira da Segurança Social pública (cuja resistência é tamanha que ainda apresenta saldo positivo, como provou o último controlo orçamental) e justificam o corte de direitos sociais em nome do seu equilíbrio financeiro. Ao mesmo tempo, preparam o terreno para a privatização das suas partes mais rentáveis a benefício de bancos e seguradoras sequiosos e ansiosos (por fundos privados de pensões em que eles impõem as regras) e reduzem o resto a um sistema assistencialista para pobrezinhos que não protestam. Sistema em que o subsídio de desemprego deixa de ser um direito resultante de contribuições sociais pagas, para passar a ser a magra contrapartida de um trabalho forçado, como já anunciaram. E em que programas de emergência social (ver aqui uma interessante reflexão recente sobre este assunto) são baseados na distribuição de sobras em fim de prazo de validade, agora de medicamentos, como antes de restaurantes, sempre com a benção do Presidente da República e da Igreja institucional. Porque pobres são malandros, não têm direitos nem cidadania, apenas merecem caridade condicionada e bem policiada.

Esta entrevista é uma reflexão informada que só peca por tardia, feita por quem sabe e conheceu por dentro todo o sistema público de protecção social. E que agora, à saída, se distancia também das malfeitorias socráticas na matéria. Que ajudaram a abrir a garrafa dos demónios agora à solta. Pena foi que não falasse mais cedo. Mas mais vale tarde do que nunca.

Que sirva pelo menos para que mais cidadãos informados, sindicatos, trabalhadores, reformados, comecem a compreender que a defesa da Segurança Social pública e do Estado Social exige mais do que protestos avulsos.

Está na hora de promover um público, sonoro e persistente Não! a que os gulosos mercados financeiros se apropriem dos últimos bens e serviços públicos (e que por o serem mais protegem o que resta de privacidade nas nossas vidas), a pretexto da falsa superioridade da gestão mercantil. Superioridade que se viu na gananciosa, criminosa e crapulosa gestão do BCP e do BPP (ou nas negociatas e jogos de interesses do BCP, ou na gestão do hospital de Amadora-Sintra), cujos encargos estão a cair em cima das nossas cabeças.

Está na hora de juntar forças para impedir o que aí vem. Com a consciência de que, para resistir eficazmente e dar um horizonte de esperança ao protesto, é preciso debater e assumir também as reformas necessárias à sustentabilidade e ao futuro do Estado Social (leia-se Saúde, Segurança Social e Educação públicas), impõe-se edificar um programa viável e alternativo de sustentação da Segurança Social pública, garante de mais solidariedade e de mais coesão social. Inseparável da recusa do neoliberalismo económico e da defesa de uma Economia Moral.

O tamanho da empreitada moral e social de defender e preservar o Estado Social como componente central de uma democracia política com futuro exige um movimento transversal e uma associação de forças sociais e políticas muito ampla e sem pretensões hegemónicas, pecadilho demasiado frequente no movimento social e nas esquerdas. Quando se lança a primeira pedra?


O objectivo é a privatização da Segurança Social

Edição Público Lisboa
28 Ago 2011

Não é por acaso que se cortam direitos, avisa Edmundo Martinho. E, “como que por magia”, há “uma espécie de anestesia geral”. Como vê o possível uso pelas Finanças das verbas da Segurança Social? Uma coisa é o caminho de convergência das tesourarias,…leia mais…

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Comer e Calar?

As recentes declarações do Cardeal Patriarca de Lisboa (ver aqui) exprimem o crescente alinhamento do discurso oficial e da prática da Igreja Católica em Portugal pelos interesses do bloco político-económico central dos grandes interesses, que a tem discriminado positivamente, financiado, protegido e beneficiado na governação. Os arrufos pontuais em matérias de valores e de costumes, onde o conservadorismo e fundamentalismo religiosos se têm necessariamente que chocar com a (condicionada e limitada) laicidade do Estado, não conseguem seguer esconder a evidente convergência de interesses.

Não surpreendem então as palavras do Cardeal Patriarca quando declarou não gostar do posicionamento dos “grupos de classes”, entre os quais os sindicatos, e que não gostava “que os grupos estejam a fazer reivindicações grupais, de classe”. Reivindicando para si a duvidosa e improvável legitimidade de intérprete do interesse geral e querendo, em nome disso, convencer os trabalhadores a abdicar  da única arma que possuem contra as injustiças – a sua organização e acção colectivas.Como se uma democracia política saudável não envolvesse a gestão e o reconhecimento do conflito entre interesses socialmente organizados.

Não queremos ofender as convicções mais ou menos liberais do Cardeal Policarpo. Todavia o seu ataque aos sindicatos, tão alinhadinho com o discurso de Passos Coelho e depois de já ter publicamente recomendado aos portugueses que comessem e calassem o programa da troika, recorda-nos irresistivelmente a “democracia orgânica” do corporativismo autoritário de má memória em que vivemos durante quase cinquenta anos com a benção do defunto Cardeal Cerejeira. Se não é saudosismo, pelo menos é um discurso legitimador do unanimismo autoritário proclamado pelo poder, assim ungido pelo poder religioso, visando castrar a oposição social e política, sem a qual não há construção de alternativas. E sem debate de alternativas, morre a democracia política.

A Igreja institucional em Portugal tem-se vindo a afastar cada vez mais de uma intervenção socialmente comprometida que obrigue a tomar partido, em favor de uma lógica assistencialista e caritativa que encaixa bem com a relação privilegiada (e mutuamente vantajosa) com um poder político e económico apostado no desmantelamento do Estado Social e na apropriação privada dos bens e serviços públicos. A orientação conservadora e mais distante das temáticas sociais do actual Papa não é certamente alheia ao facto.

A caminhada para o desmantelamento do Estado Social e a sua substituição por um regime assistencialista que traz à (má) memória a Poor Law britânica do século XIX, com a cobertura de um discurso piedoso dirigido aos pobrezinhos, encaixam perfeitamente com o proteccionismo fiscal e com a transferência largamente financiada e subsidiada das responsabilidades sociais do Estado para as IPSS e Misericórdias controladas pela Igreja, e que não são objecto de qualquer fiscalização digna desse nome quanto à gestão e realização das suas funções sociais financiadas pelo Estado.

Ora os favores e os apoios pagam-se. Um poder político tão benevolente, parcial e proteccionista em relação à Igreja-instituição, à Igreja-poder, suscita hoje o carinho dos que comandam a Igreja, e que escolheram ser mais importante a boa relação com os poderosos da política e da economia do que alinhar com os “de baixo”, a imensa maioria cidadã que sobrevive no desemprego, nos baixos salários e pensões, nos altos impostos, no trabalho precário e na incerteza do futuro, na exigência comum da redução das desigualdades e na melhor repartição da riqueza.

A crescente desatenção desta Igreja institucional quanto ao mundo do trabalho, com a desvalorização das suas organizações históricas da Acção Católica Operária, com o desaparecimento do seu activismo e reflexão organizados nesta área, ou no mínimo com o seu confinamento a sectores residuais, são um exemplo expressivo das escolhas feitas pelos principais responsáveis desta instituição. Contrastam com um passado de militantismo operário e sindical de muitos activistas praticantes de um catolicismo social interventivo e transformador. Os quais tiveram um papel marcante na configuração do movimento sindical português, como antes nos combates contra a ditadura do fascismo.

Claro que persistem nos meios católicos activismos e testemunhos de quem rema contra esta maré neoliberal que também atinge, recupera e neutraliza esta Igreja cada vez mais conformada e conformista. Como são as actividades da Comissão Nacional Justiça e Paz. Ou as intervenções dos bispos Januário Torgal ou Manuel Martins. São todavia uma minoria.

A Igreja dos ricos está a submeter a Igreja dos pobres. Assim é submetida em Portugal a Igreja dos pobres e do mundo do trabalho à Igreja-Instituição alinhada, no essencial, com os poderosos. O que ainda mais desequilibra, no imediato, a balança dos poderes para o lado dos que querem aproveitar a maré da crise para uma mais profunda,mais desigual e mais duradoura redistribuição deos recursos em favor dos que mais têm, mas que acham que não são ricos, no país mais desigual da Europa (juntamente com duas pequenas repúblicas bálticas que nos acompanham nesta vergonha).

Porém esta tentação carnal a que sucumbe o Cardeal Policarpo e a Igreja institucional que representa, esquecendo o amargo preço que já pagou no passado pela sua identificação com um regime de má memória a troco de benefícios de curto prazo, tem o reverso da medalha: é a sua perda de raízes e influência nos meios populares e no mundo do trabalho, afinal o que deveria ser a suposta razão primeira da sua existência, se levarmos a sério esse belo poema que é o Sermão da Montanha. E convém não esquecer as palavras sábias do Padre António Vieira que, no seu “Sermão do Bom Ladrão”, proclamava “o que vemos praticar em todos os reinos do mundo é, em vez de os reis levaram consigo os ladrões ao paraíso, os ladrões são os que levam consigo os reis ao
inferno.” Aviso que tem evidente ressonância contemporânea no assalto a que está submetida a maioria para proveito da finança especulativa e usurária.

Pelos vistos, vozes dos ricos chegam aos céus. Mas convenhamos que o apoio das “tias de Cascais” e dos poderosos aos seus apelos para que os explorados comam e calem não assegura grande futuro a esta Igreja.

Pelo menos um resultado positivo conseguiu entretanto o Cardeal Policarpo com a sua intervenção: unir as confederações sindicais – a CGTP e a UGT – na comum condenação pública das suas palavras. É obra, quando estas têm conseguido estar ultimamente desavindas em quase tudo, apesar da gravidade da crise social justificar uma reforçada convergência de acção.

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Jane Fonda, em entrevista publicada na última Visão, respondendo à pergunta “O que gostaria o seu eu mais velho dee dizer ao mais novo?”, comentou que “Também isto passará. É mais importante estar interessado do que ser interessante“. Mostrou a sabedoria e a energia criativa dos  73 anos bem vividos de uma grande actriz e de uma cidadã empenhada,  feminista, liberal (no sentido norte-americano do termo, ou seja, posicionada à esquerda), activa opositora da agressão norte-americana ao Vietname e ao Iraque, animadora de práticas saudáveis de vida.

Numa frase assim, ela resumiu um programa de vida e uma escolha decisiva com que cada um de nós é confrontado na contingência e finitude da nossa condição de humanos: cuidando de ser interessantes voltados para o umbigo e o espelho, ou interessarmo-nos pela vida, pelos outros, pelo mundo e, nessa relação deixar a nossa pequena semente de futuro. Obrigado, Jane Fonda, pelo mote.

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Boaventura Sousa Santos é um investigador social e um pensador estimulante. Pela esquerda. Com uma visão aberta e transformadora do mundo. Que vale a pena ler. Mesmo que nem sempre concordemos com ele.

O seu artigo publicado na Visão de ontem, “Carta às esquerdas” (ver aqui), contém pistas de reflexão muito úteis ao inadiável debate a realizar pelas esquerdas para a construção de um projecto de esperança e de poder que acrescente energia e sentido ao protesto social contra o actual estado de coisas. Este “querido mês de Agosto” está a chegar ao fim. É tempo de retomar a caminhada, juntar forças e procurar as respostas nos ventos de mudança.

Porque, como há muito tempo cantou Bob Dylan, “The answer, my friend, is blowing in the wind”. E como hoje é sábado, aqui fica também a lembrança dessa bela canção de sempre.

 

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A interessante fórmula proposta por Miguel Cadilhe na sua entrevista ao Jornal de Negócios (ver aqui)para um imposto especial sobre as grandes fortunas mostra como uma parte das elites ligadas ao grande capital, quando pressentem o risco da explosão do descontentamento social dos “de baixo” sujeitos à pressão infame de uma desigualdade cada vez maior, até aguçam o engenho e a arte para prevenir esse risco. Por isso, as palavras de Warren Buffett também por cá encontraram algum eco, embora medíocre, à medida da pequenez e ganância do capital lusitano, de que Américo Amorim é uma expressão maior, o tal que, sendo o mais rico de Portugal, logo declarou que “não é rico”, apenas “trabalhador”.

A proposta de Miguel Cadilhe – arrecadar com o imposto especial sobre as grandes fortunas o equivalente a dois anos de colecta da totalidade do IRS, que poderiam ir directamente para o abate da dívida pública -, e também a proposta que o BE hoje novamente apresenta na Assembleia da República (mais recuada e moderada do que aquela), têm o mérito de colocar a questão no ponto certo: não basta taxar os altos rendimentos em sede de IRS (o que já é feito, com resultados limitados, através de uma taxa de 46,5% sobre os rendimentos mais elevados); é preciso ir ao património mobiliário (acções, obrigações, ouro, etc.) e imobiliário dos muito ricos e aplicar-lhes uma taxação especial. Em nome de uma maior equidade fiscal. O que, se não repõe a justiça na profundamente desigual distribuição da riqueza em Portugal, pelo menos condicionaria a margem de manobra deste Governo ultraliberal para usar de forma desmesurada a pressão dos impostos e do corte de direitos sobre os suspeitos do costume (trabalhadores, reformados, desempregados).

A conveniente recordação por alguma imprensa da defesa pelo Presidente da República de uma taxação especial sobre os altos rendimentos não deve servir para reconhecer de repente algum Robin dos Bosques na Presidência. Significa antes a instrução clara ao Governo, por parte do seu patrono, de que esta onda não deve servir para atingir o património dos poderosos, mas apenas para medidas de “faz de conta”. Ou, dito de outro modo, e lembrando a frase batida do Príncipe de Salina no “Leopardo”, de Lampedusa, a receita de Cavaco e de outros comentadores de serviço ao poder, é que é preciso que algo mude para que tudo fique na mesma. De facto, Cavaco Silva opõe-se a qualquer tributação especial sobre os grandes patrimónios ou fortunas, mobiliários ou imobiliários, porque sabe muito bem que é aqui que se podem ir buscar recursos para mitigar a carga fiscal e social desproporcionada sobre os rendimentos do trabalho e sobre as pensões. Para este representante da elite política conservadora, o capital é sagrado. E o capital já redistribui voluntariamente os seus restos e migalhas através das obras de caridade que ele tanto tem enaltecido como alternativa a um Estado Social que é preciso desmantelar, não é?

Um argumento já vindo à liça pelos comentadores de serviço, cavaleiros andantes bem pagos sempre prontos a pregar a austeridade para os do costume, é a treta de que um imposto especial sobre as grandes fortunas impulsionaria uma fuga gigante de capitais e a falência dos bancos. É sempre a mesma melodia, seja nas medidas austeritárias da troika e “mais além” (lembrando a orientação ultraliberal do Governo), seja na protecção do grande capital: o que é preciso é acalmar os mercados, as pessoas vêm depois… E o resultado é sempre o mesmo. Os capitais continuam a voar para os paraísos fiscais (vejam-se as estatísticas), o desemprego continua a subir, a recessão a crescer, e as grandes fortunas a crescer (veja-se o insuspeito estudo da Exame, que revela que as 25 maiores fortunas nacionais representam mais de 10% do PIB e aumentaram o seu património quase em 20% num ano e em plena crise).

Os que assim pregam, não explicam porém porque é que os grandes grupos económicos e os bancos portugueses já têm boa parte dos seus activos e dos seus lucros controlados por sociedades sediadas em paraísos fiscais e noutros países europeus, para fugirem ao pagamento de impostos no seu país (como sucede com o “trabalhador” não rico Américo Amorim…). Nem porque é que sistematicamente o PS e os partidos da direita recusaram sempre as propostas à esquerda, do PCP e do BE, para ser controlada e taxada a transferência de capitais para os paraísos fiscais, o que seria possível e viável.

Neste debate, que agora recomeçou, importa ver as cenas do próximo capítulo. Por exemplo, como é que o PS se vai comportar nesta matéria. Se como oposição “construtiva” – leia-se, bem comportado e cúmplice nos compromissos com a troika e com o programa austeritário de recessão e agravamento da pobreza e das desigualdades, embora temperado com alguma proclamada “consciência social” – ou colocando-se claramente do lado da esquerda e dos que combatem por alternativas a esta ordem económica e social injusta.

Cabe aos trabalhadores, às esquerdas, ao movimento social, não permitir que este debate sobre a responsabilização e partilha pelos muito ricos do pagamento da crise seja apenas, como pretendem as elites político-económicas beneficiárias da crise, uma operação cosmética para enganar o pagode e anestesiar o temido protesto social dos humilhados e ofendidos. O que implica propostas e pressão social efectiva para que haja medidas reais e visíveis, no seu valor e nas suas consequências, que provoquem progressos na repartição social da riqueza e dos sacrifícios. E afinal, como questiona o insuspeito de simpatias radicais de esquerda Miguel Cadilhe, “Pagar uma taxa de 3 ou 4% sobre um grande património líquido será muito aflitivo?”

Se tal não suceder, destas “manobras de Agosto” apenas resultaria uma ópera bufa ou um jogo de espelhos montado pelos poderosos para distracção dos incautos e anestesia dos que estão cada vez mais absorvidos pela sobrevivência quotidiana. Do que os poderosos têm medo, muito medo, é que a corda social, de tão esticada pela ganância extrema do capital sem freio e da economia de casino dos mercados, se parta mesmo e que “os brandos costumes” dos portugueses que tanto acarinham se revelem afinal uma ficção.

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Claro que celebramos a queda de uma ditadura, aliás apoiada e estimada pelos mesmos Estados (incluindo o português) que agora saúdam a sua queda. Petróleo, a quanto obrigas…

Todavia isso não nos deve dispensar de  escavar para além da superfície em que os média celebram a pretensa vitória da democracia e da liberdade, silenciando as contradições e os interesses que se movem por detrás da intervenção militar conduzida pela França e pelo Reino Unido na Líbia, com cobertura da ONU e apoio norte-americano, e que foi decisiva para abrir caminho ao avanço das forças rebeldes sobre Tripoli.

Lembremos: a intervenção militar aérea franco-britânica começou por ser definida, no mandato aprovado pela ONU, como sendo para criação de uma zona de exclusão aérea que evitasse um massacre da população de Bengazi pelas tropas de Khadafi. Rapidamente evoluiu, exorbitando do mandato político, para uma intervenção militar continuada tomando partido por um dos lados na guerra civil. Depois, para um bombardeamento aéreo permanente sobre Tripoli, sob o pretexto de defender as populações (!) e para a tentativa oficialmente assumida de assassinar Khadafi, família e outros apoiantes. Agora, já se fala na necessidade de estabelecer uma força de intervenção militar para apoiar a transição política.

Como também recorda Simon Jenkins na sua crónica no Guardian sobre este assunto, também as desastrosas intervenções militares no Iraque e no Afeganistão começaram, a primeira, por ter como objectivo a busca e destruição das famigeradas armas de destruição massiva que não existiam e, no segundo caso, para destruir as bases da Al-Quaeda. Viu-se, em ambos os casos, no que deu, e como estamos longe dos cantos de sereia iniciais.

De facto, as revoluções iniciadas na Tunísia e no Egipto tiveram como característica genuína e distintiva terem sido conduzidas pelos respectivos povos e, depois, terem sido reconhecidas pela comunidade política internacional, o que conferiu legitimidade reforçada aos seus actores políticos e sociais, num processo que continua e cujo resultado é ainda marcado pela incerteza. Na Síria, é o povo que se levanta e sofre contra o regime cruel e despótico de Assad, enquanto na ONU só recentemente o Conselho de Segurança conseguiu acordar uma resolução moderada e recuada na condenação daquele regime.

Como lucidamente sublinha Jenkins, quanto mais a libertação de uma ditadura depender de meios externos ao próprio povo, menos robusta ela será. Aplaudir a libertação de um povo oprimido não tem que significar o acordo com todos os meios para a realizar, incluindo a agressão militar externa. Que excedeu em muito a justificação inicialmente proclamada de proteger populações indefesas. O novo regime líbio nasce assim fragilizado pelo excesso da intervenção militar externa e com problemas adicionais de legitimidade e de consolidação para resolver.

A Líbia e o povo líbio carecem certamente do apoio da ONU e da comunidade política internacional. Para que as feridas da guerra civil, as divisões internas e a ausência de organizações sociais e políticas consolidadas não abram caminho à destruição das aspirações populares de liberdade e democracia e a mais um Estado falhado, ou a um mero protectorado governado pelos grandes interesses do petróleo. Mas apoio humanitário, político, diplomático e em meios para a reconstrução do país e para a construção de um Estado democrático e viável, cujo caminho seja exclusivamente determinado pelos próprios líbios e por um processo político exigente de reconciliação interna. Não certamente de intervenção militar que, a pretexto de solidariedade, de facto acabe por constituir mais um protectorado dos grandes interesses do petróleo. Oxalá os líbios empenhados no combate pela democracia no seu país tenham a lucidez e a força necessários para a construção e legitimação, difícil e demorada, de um Estado e de uma sociedade democráticos.

Quanto à oportuna reflexão de Simon Jenkins publicada pelo Guardian, pode ser acedida aqui.

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