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Archive for Abril, 2012

Sabíamos, esperávamos, mas nunca estamos preparados. De repente, uma perda e um vazio. Partiu um dos melhores. Cedo demais. Fazes falta, Miguel. Para levar adiante o sonho comum que partilhámos de juntar forças e renovar e acrescentar forças à esquerda. Enfrentaste a morte anunciada como fizeste com a vida sempre. Com coragem e de frente. Insubmisso. Irreverente. Solidário e generoso. Heterodoxo. Interrogando a vida e o mundo. Empenhado até ao último sopro de vida nas causas dos humilhados e ofendidos.

Disseste numa entrevista que “ao chegar ao fim da vida, quero poder olhar para trás e dizer: terei feito algumas asneiras, mas no conjunto posso partir, lá para onde for, com tranquilidade.” Pudeste fazê-lo. Por mérito próprio.

A gente não te esquece, Miguel. A gente vai continuar.

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Donos de Portugal é um documentário de Jorge Costa sobre cem anos de poder económico. O filme retrata a proteção do Estado às famílias que dominaram a economia do país, as suas estratégias de conservação de poder e acumulação de riqueza.

Mello, Champalimaud, Espírito Santo – as fortunas cruzam-se pelo casamento e integram-se na finança. Ameaçado pelo fim da ditadura, o seu poder reconstitui-se sob a democracia, a partir das privatizações e da promiscuidade com o poder político. Novos grupos económicos – Amorim, Sonae, Jerónimo Martins – afirmam-se sobre a mesma base.

No momento em que a crise desvenda todos os limites do modelo de desenvolvimento económico português, este filme apresenta os protagonistas e as grandes opções que nos trouxeram até aqui.

Produzido para a RTP 2 no âmbito do Instituto de História Contemporânea, o filme tem montagem de Edgar Feldman e locução de Fernando Alves.

A estreia televisiva insere-se no Dia D, iniciativa de divulgação de documentários de produção nacional na RTP2, e está prevista para cerca das 2h00, de 24 para 25 de Abril. A partir desse momento, o documentário estará disponível na íntegra em www.donosdeportugal.net.

Donos de Portugal é baseado no livro homónimo de Jorge Costa, Cecília Honório, Luís Fazenda, Francisco Louçã e Fernando Rosas, editado em 2011 pela Afrontamento.

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Este é um murro na mesa e um alerta cívico que fazia falta por parte dos militares que fizeram o 25 de Abril, com a legitimidade que lhes assiste de responsáveis maiores pelo fim da ditadura e pela conquista da democracia. Eis o que dizem no manifesto da Associação 25 de Abril (ler aqui o seu texto integral):

– Oposição frontal dos militares de Abril à linha política seguida pelos actuais detentores do poder político, por ter deixado de reflectir o regime democrático herdeiro do 25 de Abril e por configurar já um outro ciclo político que está contra o 25 de Abril, os seus ideais e os seus valores;

– não participação nas comemorações oficiais nacionais do 38º aniversário do 25 de Abril como sinalização pública desta oposição ao rumo político do país e aos responsáveis por esta orientação desastrosa.

Os militares que fizeram o 25 de Abril levantaram assim a voz contra os detentores deste poder político diminuído e servil – governantes, presidente da república, partidos maioritários responsáveis pela governação – e disseram basta! ao programa de empobrecimento e de conversão do país em colónia ou protectorado. Porque um poder político assim, apostado num ajuste de contas sistemático com o 25 de Abril e o que dele resta, pode ainda ter a legitimidade formal, mas perdeu a legitimidade democrática que a Revolução de Abril construiu e a Constituição consagrou.

Há quem manifeste dúvidas e reservas sobre a posição tomada pela Associação 25 de Abril, invocando a importância de se preservar a celebração do 25 de Abril no parlamento. Ora o manifesto não questiona que os partidos com representação parlamentar usem a AR para tal celebração. Nem questiona o valor democrático das instituições. Questiona sim estes detentores maioritários do poder político e institucional, responsáveis maiores pelo descalabro em curso.

A A25A não é um partido, e os militares de Abril também não. Usaram esta ausência (pela primeira vez!) dos actos oficiais da comemoração de Abril para tornarem mais audível no país o seu alerta contra a gravidade extrema deste rumo político ultratroikista. Recorreram a um acto simbólico extremo, democrático e legítimo, que usaram na sua condição de cidadãos – não participarem na comemoração institucional do 25 de Abril – e que potencia o seu protesto e o seu alerta.

Os militares de Abril reafirmaram assim, de modo polémico e público, o seu compromisso com a democracia e com a maioria flagelada pela austeridade e a urgência de mudar de rumo. Antes que seja tarde demais. Os responsáveis primeiros da Revolução de Abril, perante esta governação que conduz o país a uma tragédia anunciada, fizeram uma escolha inequívoca. Estão do lado dos interesses populares e da democracia, apelando à mobilização cidadã, em que se incorporam, para uma alternativa política a esta desastrosa orientação austeritária.

A palavra  agora aos portugueses, às esquerdas e aos movimentos sociais. Ou juntamos juntar forças e encontramos engenho e arte para a exigente empreitada de construir uma alternativa política, ou vence o conformismo e o medo embrulhados na inevitabilidade e na culpa que diariamente nos vendem como receita. A responsabilidade é de cada um e de todos.

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Assim-assim

 É considerada a capital política da Europa e quase toda a gente que conheço já por ali passou alguma vez. Ninguém vai para Bruxelas de férias. As pessoas vão “a” Bruxelas, que é muito diferente de ir “para” Bruxelas. É sempre um lugar de passagem.
A cidade enche-se entre terça e quinta feira com todos os que trabalham para as instituições europeias – os eurocratas, expressão que os próprios detestam mas oslocais adoram, irónicos. A segunda-feira é um vazio, a sexta-feira é mais ou menos, depende.
O fim de semana é um autêntico deserto. Diariamente quase tudo fecha às 18h. Um jantar a horas decentes, para eles, é às 19H/19.30H. Às 21h, na maior parte dos restaurantes, os empregados já olham impacientes para a nossa mesa, para nos apressarem a pedirmos a conta e sairmos dali para fora. Fica no coração da Europa, dali é fácil dar um salto a qualquer outra cidade. Estar em Bruxelas e ir, por exemplo, jantar a Paris é um must do! Ainda não foi desta que pude fazê-lo.
Mas Bruxelas é uma cidade estranha. Mista de bom e de mau. É uma cidade estranha em que não me sinto bem nem mal. Não sei se gosto ou não. Há momentos ou dias em que gosto e acho que conseguiria gostar muito, ao ponto de ali passar uma temporada profissional. Mas há outros momentos ou detalhes que rapidamente me demovem dessa hipótese. Não sei bem explicar. É um assim-assim. Talvez sim, talvez não.
Gosto da ideia de centralidade, de tudo estar à mão, perto de vários países e imensas cidades que quero conhecer.
Dizem que o tempo é sempre cinzento, é quase sempre verdade. Faz-me falta o sol.
Dizem que quase não há verdadeiros belgas em Bruxelas. Não sei se me cruzei com algum, gostava de perceber a diferenças.
Há um cheiro estranho, diferente do cheiro de Lisboa. O cheiro das pessoas é bastante diferente, menos arejado. Há cheiros de náusea, adocicados, enjoativos, de fugir. Mas as ruas cheiram a chuva, a terra molhada.
Há bicicletas, centenas de pessoas a andar de bicicletas, como se a chuva e o frio não perturbassem. Gostava de poder pedalar em Bruxelas.
E há esplanadas com muita gente a beber cerveja ao fim da tarde como se fosse sempre fim-de-semana.
E há tulipas nos jardins.
 Ninguém pisa ou danifica as tulipas de Bruxelas. Ninguém arranca as tulipas amarelas que enchem as alamedas. E há brancas ali mais à frente. E vermelhas no canteiro ali à esquina. Um mar de tulipas coloridas, organizadas. Mas também ninguém pára para as contemplar, apenas os turistas ou temporários como eu.

Detesto a estátua do menino a fazer xixi – tem algum jeito?
Não há mar. Isso é mau. Não gosto de Bruxelas, assim. Onde iria ver o mar? Onde iria ver a espuma e as ondas e o horizonte e as algas e as conchas e a areia e o azul e o verde? E o som das ondas a baterem nas rochas? Onde iria sentir o cheiro do mar?
Tem o Magritte…

Mas o café é mesmo muito mau.
Não se come bem nem mal. Às vezes come-se bem, já comi muito bem em Bruxelas (ostras também). Mas também já comi horrivelmente. Sempre caro, para os nossos padrões. Gosto de cerveja. Gosto de provar as várias cervejas que lá existem. Gosto de me perder a ver a ementa de cervejas e provar as diferenças.

Adoro chocolates, será porventura um dos meus vícios. Até nisso, a cidade é estranha. Comer um chocolate artesanal numa chocolataria tradicional pode ser a mais maravilhosa e pecadora experiência. O cheiro à entrada de cada chocolataria, as cores, os aromas, os tipos de cobertura, as misturas com as frutas, os açucares, o cacau puro de todas as partes do mundo, as fontes que pingam chocolate e onde apetece enfiar os dedos e libertar a língua. Quase gostava de ter uma chocolataria em Bruxelas. Uma chocolataria com livraria de poesia, tudo no mesmo espaço. Muitos sofás e almofadas pelo chão, luz acolhedora, aberta até tarde, uma lareira na sala grande, janelas altas até ao tecto, fotografias grandes nas paredes, música a sair de um gira-discos. E estantes de livros de poesia e contos mágicos intervaladas com fontes de chocolate. Fios de chocolate espesso, castanho, intenso, aveludado a caírem sobre poemas talhados na pedra. Venderia bombons de Sophia, Pessoa, Ruy Belo, Ramos Rosa… – “um bom-bom Sophia com recheio de frutos silvestres, s’il vous plaît!
Ah, sim… Acho que adoraria ter uma chocolataria em Bruxelas…

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Vê-se, ouve-se e nem queremos acreditar. Mas é verdade. Uma série de artistas habitualmente conhecidos por associarem à qualidade cultural do seu desempenho um posicionamento social crítico e solidário, participam na canção que funciona como hino da campanha “Zero Desperdício” (ouvir aqui a canção, para informação completa).

Claro que somos contra o desperdício e pelo pleno aproveitamento dos recursos e dos bens. Mas não percebemos como é que se aceita que  a distribuição das sobras seja o eixo central de uma poderosa campanha global que pretende mobilizar os cidadãos para o apoio aos mais pobres, desfavorecidos e desprotegidos nesta crise.

Claro que somos pela partilha e pela solidariedade. Mas não a confundimos com o elogio da entrega das migalhas que sobram da mesa farta de alguns.

Claro que não questionamos a boa e recta intenção de muitos participantes nesta campanha, nem o seu direito cidadão de lhe darem voz e rosto. Mas, como é sabido, o inferno também se alimenta de boas intenções e de bem intencionados.

Que este presidente da república com que temos que viver tenha dado o seu patrocínio a esta campanha, percebe-se. Está na sua reconhecida natureza de propagandista da caridade e do assistencialismo.

Que artistas estimáveis tenham alinhado, atraídos pelo combate ao desperdício, numa operação que constitui uma variante sofisticada do que José Barata Moura há umas décadas atrás já denunciava na sua certeira canção Vamos brincar à caridadezinha, só se percebe por ainda vingar na sociedade portuguesa o conformismo  e a resignação perante a estratégia do medo, da culpa e da punição conduzida por governantes fundamentalistas e autoritários. Estratégia que está a tolher a lucidez de alguns quanto às causas das coisas e quanto ao que é preciso fazer. E a empurrar a má consciência de outros para escapes e saídas fáceis e auto-consoladoras de mitigação de problemas sociais difíceis. Que exigem outro rumo. Outros governantes. E o crescimento amplo e profundo da indignação social contra este estado de coisas e contra os seus responsáveis. Os tais que patrocinam e apoiam discretamente esta conveniente campanha, enquanto prosseguem o seu plano de empobrecimento duradouro do país (leia-se: da maioria).

Nada mais oportuno para os mandantes do que esta promoção de “desportistas da caridade” que José Barata Moura também já denunciava, assim ocupados na distribuição das sobras como panaceia universal para enfrentar os problemas da fome, da privação e da chocante desigualdade social que é causa primeira da pobreza.

Mas fica também a esperança e a convicção de que muitos dos que nela agora colaboram também estarão connosco hoje e amanhã noutros combates mais decisivos por um futuro colectivo mais decente e democrático, que não seja baseado na distribuição dos restos e das migalhas sob o eufemismo de “combate ao desperdício”. Entretanto, para que conste, aqui fica a canção de José Barata Moura.

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Disse a economista Elena Lasida, que participou na conferência Economia com Futuro em Setembro passado, na Gulbenkian, e há pouco voltou cá:

“É preciso pensar a finança de maneira completamente diferente. A finança tem uma primeira finalidade que é financiar a economia real, não é uma  finalidade em si mesma. O dinheiro deve ser para a produção real e para fazer circular os bens e as relações. Trata-se de reencontrar essa função primeira do dinheiro.”

Pois é. Separar a banca comercial, voltada para a economia real, da banca de investimento. Proibir os produtos especulativos e tóxicos que alimentam os esquemas de Ponzi dos mercados financeiros, que de vez em quando nos dolorosamente sobre as cabeças e os bolsos. Taxar as transacções financeiras para limitar os movimentos especulativos de capitais. Controlar e limitar os mercados financeiros. Acabar com a liberalização desenfreada dos mercados de capitais que iniciou nos anos 80, sempre justificada pela narrativa neoliberal, esta fase trágica do capitalismo.

Eis um bom ponto de partida para um programa alternativo de governação das esquerdas que não tenham desistido de o ser. E, primeiro, um programa de mobilização social e política. Indo à raiz da crise e da doença, em vez de votar tratados suicidários para Europa e o país. Como fez conformadamente Seguro, porque era preciso acalmar os mercados financeiros (leia-se bancos e banqueiros, fundos especulativos e outros predadores), querendo sossegar a consciência com um projecto de resolução adicional sem valor, que mereceu o desprezo de todos, mesmo dos governantes a quem acompanhou no voto.

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As palavras estão gastas. E a descodificação dos discursos torna a comunicação problemática.

Com Passos Coelho todavia é pior. Que dá o dito por não dito e faz o contrário do prometido, já o sabíamos. Mas em Passos Coelho isso significa que as palavras têm um significado diferente do comum. Ou teríamos de concluir que é  um mentiroso inveterado. Um pinóquio profissional, com ar de honrado e grave chefe de família. Não queremos que assim seja, não é? Isso poderia desestabilizar os mercados…

Passos Coelho dixit no congresso açoreano do seu partido: é necessário  “alterar profundamente as estruturas económicas políticas e sociais do nosso país para que privilégios injustificados não voltem a reposicionar-se”.

Segundo a interpretação normal de privilégio, o primeiro-ministro teria de repente descoberto uma vocação de robin dos bosques, sentindo uma súbita necessidade de tirar aos ricos para dar aos desfavorecidos. De acabar com as escandalosas rendas dos grandes grupos económicos que sangram o Estado e os impostos que pagamos. De nacionalizar, quiçá, empresas de sectores estratégicos para o país. De pôr em sentido os banqueiros. De acabar com a vilanagem de fartos lucros à custa dos monopólios naturais nos sectores dos bens não transaccionáveis de que se alimentam as histórias de sucessos dos nossos grandes empreendedores. De arregaçar as mangas contra as parcerias público-privadas que desgraçam as contas públicas e o nosso futuro. De vestir e não baixar as calças frente a Merkel.

Erro. Não houve nenhuma epifania. O verbo divino não iluminou a sua cabeça.

O que acontece é que a semântica das palavras em Passos Coelho não é a da normal língua portuguesa. É preciso descodificar.

Ele vê o mundo ao contrário. As pessoas de cabeça para baixo. De pernas para o ar. Acabar com os privilégios e alterar as estruturas económicas é dar porrada nos mais pobres entre os pobres, no trabalho e nas reformas. Afinal, são os poderosos que estão na parte mais baixa da escala social. E Passos Coelho tem de atacar os que estão em cima.  É a sua missão. Foi lá colocado pelos mandantes para isso. Com muitos votos do rebanho.

Sendo assim, Coelho não é mentiroso. É apenas uma questão de perspectiva. E de semântica. Não é problema que se resolva com um acordo ortográfico. Exige outro dicionário. Ou outro povo.

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Privilégio: Direito ou vantagem concedido a alguém, com exclusão de outros. Bem ou coisa a que poucos têm acesso. Etc. 
(do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa).

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