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Archive for Outubro, 2013

A violência doméstica é sempre, em qualquer circunstância, um acto repugnante. Seja entre quem for, seja contra quem for. Os doutoramentos em filosofia não trazem por si só qualidades aos homens.

 

A discussão na redacção era se devíamos dar a notícia.

 

– A confirmar-se, e depois de ouvidas as partes envolvidas, claro que sim! – diziam uns.

– Isso são notícias para a imprensa cor-de-rosa! – contestavam outros.

– A nossa rádio não dá essas coisas. – acrescentavam alguns.

– Isso é lá da vida de cada um. Quem é que quer saber disso? – questionavam outros.

– Não se trata da vida da Bárbara e do Manuel. É a violência que está em causa.

– Mas isso é lá com eles!

– Não senhor! Nem pensar! Isso é um crime público!

– E se não fosse a Bárbara e o Manuel, também davas? Se fosse a Xica e o Zé, davas a notícia?

– Mas precisamente por serem figuras reconhecidas do público é que devemos dar.

– Até pelo facto de ela ter feito queixa devia servir de exemplo aos casos da Xica e do Zé. E de todas as Xicas e de todos os Zés.

– Mas devíamos dar sempre notícias destas? Tinhas a antena cheia dessas coisas.

– Claro, porque a sociedade acha que isso é banal, que é normal um homem bater numa mulher.

– Alguém acharia normal que a TSF desse uma coisa dessas na abertura do noticiário?

– Não tem que ser abertura.

– Isso é para o Correio da Manhã e para a TVI. Vende como pãezinhos quentes.

– Não se trata de vender ou não. Não tem a ver com audiências.

– Mas o que é que isso interessa ao “ouvinte TSF”?

– Não ao ouvinte TSF. Mas a qualquer ouvinte. Não há perfil classe e A. Há um crime, aqui.

– Bah, um crimezeco social. Cor-de-rosa. Interessa às cabeleireiras.

– Interessa às pessoas. À sociedade. É um problema social grave.

– Mas qual é o facto relevante?

– Haver um crime público. Praticado por uma pessoa pública. Contra outra pessoa pública. Não chega?

– Não sabes se se confirma. Pode ser mentira. E quê, usas o “alegadamente” e já está?

– Não. A questão é antes dessa. O primeiro passo é saber se vale a pena ou não confirmar a notícia. O facto, por si só, é relevante. Não é por ser a Bárbara ou o Manuel. Repito: um crime público. Praticado por uma pessoa pública. Contra outra pessoa pública.

 

A discussão na redacção manteve-se. Não demos a notícia. Mas foi bom discuti-la. 

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