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Archive for the ‘Cidadania’ Category

Vítor SantosMorreu o Vítor Santos. Partiu prematuramente, aos 70 anos de idade, após enfrentar com exemplar coragem uma doença dolorosa e prolongada. Activista social e político generoso e empenhado, sempre insubmisso e indignado contra as injustiças, sempre do lado dos “de baixo”. Um Amigo insubstituível.

No seu funeral, e cumprindo uma das suas últimas vontades, fiz enquanto seu amigo uma intervenção que aqui reproduzo:

O Vítor Santos, amigo e camarada com quem tive o privilégio de partilhar alegrias e tristezas, interrogações, combates e projectos de incerto destino, fez quatro pedidos ainda em vida, para serem cumpridos na sua partida: uma bandeira vermelha; a audição colectiva da canção “Gracias a la Vida”; que os amigos celebrassem a sua memória com o pão e o vinho da fraternidade e do convívio; e que eu dissesse algumas palavras.

Aqui estamos para em conjunto cumprirmos a sua vontade e celebrarmos a sua vida e a sua memória, inconformados com a sua partida prematura aos 70 anos, quando a sua experiência, energias e saberes tanto falta nos faziam ainda na nossa caminhada comum. Corajoso e determinado tanto na aventura da vida como no modo como enfrentou a doença e o fim, tendo sempre ao seu lado uma extraordinária e igualmente corajosa companheira, a Ana.

Não terei a pretensão de resumir nalgumas palavras, aqui e agora, uma vida inteira, rica e variada, como foi a do Vítor. Procurarei tão só partilhar e lembrar uma fracção significativa daquilo que familiares e amigos dele conheceram e valorizaram.

O Vítor Santos foi um dos seres humanos mais generosos, solidários, autênticos e leais que conheci. Com ele tive o privilégio de aprender muito e de partilhar uma verdadeira e duradoura amizade. Viveu intensamente e intensamente se empenhou nas causas que abraçou. É um daqueles que, aos meus filhos como aos meus netos, sempre lembrarei como uma das minhas referências mais fortes sobre o melhor que somos enquanto humanos.

Não foi certamente uma figura mediática. Nem constará provavelmente dos livros de história. Mas faz parte daquele exército dos que dão tudo de si em prol da libertação dos homens sem nada exigirem em troca. Sem os quais a marcha dos humilhados e ofendidos pela sua dignidade não poderia progredir e ganhar sentido.

É a memória de pessoas assim, como o Vítor, que precisamos de incorporar na nossa história colectiva e na nossa caminhada, para que nos ajudem a iluminar a estrada e o sentido e nos fortaleçam a crença e a esperança num mundo melhor e numa sociedade mais decente.

Falar do Vítor é lembrar o trabalhador qualificado (era desenhador projectista), responsável, qualificado e exigente que sempre foi, o camarada de trabalho leal e solidário, dos tempos da Sorefame ao tempo em que por inteiro se entregou como revolucionário profissional – conceito hoje estranho para muitos, mas que fez todo o sentido no seu caso – ao PCP, até aos últimos anos de vida, em que encontrou no SPGL – Sindicato do s Professores da Grande Lisboa, uma outra casa e um outro modo de continuar a servir os trabalhadores e as suas causas.

Falar do nosso amigo Vítor é lembrar uma vida de intensas, múltiplas e variadas experiências. Homem de cultura e conhecimento fora do comum, não de saber académico, mas de uma sabedoria construída na permanente vontade de ler, de praticar, de descobrir, de questionar, de interrogar e procurar respostas e a compreensão do mundo e das pessoas. Por isso mesmo os seus saberes e centros de interesse foram diversos, dos trabalhos e artes manuais ao fascínio pelas artes plásticas, pelas ciências e pelas técnicas. Sempre, sempre procurando partilhar saberes e aprendizagens e procurando encontrar soluções para problemas. E sempre partilhando histórias e experiências de vida com amigos e companheiros de trabalho, como grande e genuíno contador de histórias que foi.

O Vítor fez uma dura e exigente aprendizagem do que é a aventura da vida e do crescimento. Nas guerras coloniais, na fábrica, na sociedade, nas privações materiais. Conheceu, sofreu e indignou-se coma exploração, a dominação e a humilhação dos homens por outros homens. E foi assim que formou a personalidade generosa, solidária, leal e combativa que lhe reconhecemos.

Foi activista social e político, sempre empenhado, sempre insubmisso contra as injustiças, os males e as opressões no mundo. Sempre do lado dos “de baixo”. Lutador antifascista. Sindicalista no seu sector profissional, os técnicos de desenho. Destacado militante comunista e um dos mais qualificados construtores e dirigentes históricos da Festa do Avante! Sempre cidadão de convicções e de valores. Todavia, e quando foi preciso, a sua vontade de interrogar e de compreender as mudanças permitiu-lhe também não ficar prisioneiro de certezas cristalizadas e de becos sem saída. Por isso, permanecendo comunista e nunca traindo as convicções e os ideais que escolheu, soube igualmente fazer escolhas pessoais difíceis na sua vida e na sua intervenção política. Não hesitando em procurar rumos novos para a libertação dos trabalhadores a que dedicou o melhor da sua vida. Sempre sem azedumes nem rancores.

Nos últimos anos, empenhou-se fortemente no desenvolvimento do activismo social e no trabalho de construção de unidades e convergências. Foi membro e dirigente da ATTAC. Esteve na fundação do Movimento Não Apaguem a Memória. Foi um dos promotores da Comissão Nacional de Apoio ao Tribunal Russell sobre a Palestina. Foi activo apoiante dos esforços de diálogo e convergência à esquerda do Congresso Democrático das Alternativas. Foi um dos organizadores desde a primeira hora do espaço de encontro e convívio plural que são os jantares anuais “Em Abril, Esperanças Mil”.

Não resisto a lembrar aqui uma pequena história que define o seu modo de estar e de intervir. Quando da guerra de agressão contra o Iraque, o Vítor, com a Ana, decidiram conceber e produzir em sua casa muitas faixas criativas de protesto que foram colocar nos viadutos, por toda a IC 19, entre Lisboa e Sintra. Era assim o Vítor Santos. Não esperou por decisões ou orientações. Tomou a iniciativa e agiu como cidadão indignado e solidário.

Agora que partiu um dos mais generosos e solidários seres humanos que conheci, apenas posso desejar que de cada um de nós também possa um dia ser dito, na hora da nossa partida, aquilo que com segurança podemos afirmar do Vítor Santos: no deve e no haver do seu contributo para a humanidade e para o mundo, no balanço dos defeitos e qualidades, o saldo é imensamente positivo. E como valeu a pena a sua vida cheia!

O Vítor não teve tempo de fazer, como desejava, uma última caçada. Mas o caçador de sonhos que foi, esse, permanecerá nas nossas memórias a inspirar as nossas utopias.

São decerto bem aplicadas ao Vítor Santos as palavras de um destacado oposicionista à ditadura do Estado Novo, Mário Sacramento, que terminou a sua carta-testamento assim: Façam o mundo melhor, ouviram? Não me obriguem a voltar cá!

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Esta é uma história e um testemunho que o meu amigo de muitos anos Nelson Bertini escreveu para celebrar os 40 anos do 25 de Abril, partilhou comigo e me autorizou a divulgar. Aqui fica. Fiz com ele e com muitos outros parte desta história. Quando uma geração de jovens trabalhadores do Porto, no final dos anos 60, resolveu ser parte do combate para vencer o sufoco de uma vida, de um regime e de um país fechado e sem horizontes. A casa dos pais do Nelson Bertini foi porto de abrigo e ponto de partida para os nossos voos e aventuras. E também lugar de amizades para a vida. Aqui fica o seu belo texto e a homenagem comovida a tantos companheiros que foram “filhos da madrugada”, alguns dos quais já partiram.

“RUA DA TELHEIRA, 440 – PARANHOS – PORTO

UMA CASA NA REVOLUÇÃO

 A casa onde eu morava com os meus pais e irmãos, estava ali na rua da Telheira fazendo esquina com a rua do Tronco, na freguesia de Paranhos. Era uma casa adaptada de uma Subestação dos Serviços de Transportes Colectivos do Porto, que coube ao meu pai, funcionário da empresa desde os nove anos de idade, por bons serviços prestados.

Foi projectada em 1909 para fornecer corrente contínua a veículos de tracção eléctrica a várias “linhas” de eléctricos. Era um exemplar notável da “arquitectura industrial” copiada da Casa Mãe, a Central de Massarelos, ao que sei, com o dedo do arquitecto Marques da Silva.

A minha casa era assim uma casa austera e grave, quase um ser com vida própria, muito por força dos mecanismos e engenhos humanos que albergava e que geravam forças misteriosas e incomensuráveis para a nossa compreensão da época.

De uma escala fora do comum com espaços e dimensões extraordinárias, a começar pelo “hall” onde caberiam folgadamente dois carros eléctricos e a acabar em doze pára-raios no telhado. Um grande quintal onde floriam canteiros geometricamente traçados e acarinhados pelo meu pai e onde os vizinhos e passeantes se embasbacavam e, amiúde, pediam “cinco tostões de flores”.

Foi nessa casa, feita do resfolgar e gritos de máquinas, de mistérios, de ruídos sobrenaturais, de espaços imensos, que vivemos, durante mais de vinte anos. Anos de aprendizagens, de trabalho, de amores e desamores adolescentes e mais tardios, de cultura, de sentimentos de liberdade. E foi, também, um dos lugares de encontro e de acção política de uma geração de jovens que, nos anos idos de 1968 a 1974, perante os dramas da história, decidiram não ficar indiferentes e agir.

Foi nesta casa, da “Telheira”, que passavam de mão-em-mão os livros proibidos, como A Mãe de Gorki, o Manual de Economia Política de Nikitin, O Ciclo do Caranguejo de Josué de Castro, o Crimes de Guerra no Vietname Bertrand Russel, o Princípios Elementares de Filosofia Política de Georges Politzer, e muitos outros. Éramos quase todos trabalhadores ou trabalhadores estudantes, eram leituras difíceis, mas a vontade de saber e de aprender era grande. Não nos contentávamos com a espuma das coisas, com o preto e branco das explicações mais simples.

Foi nesta casa, da “Telheira”, que se realizaram as primeiras reuniões da célula do Partido (o PCP) para a organização do Movimento da Juventude Trabalhadora (MJT): eu e o Henrique, dirigida pela funcionária clandestina Ivone Dias Lourenço. O MJT foi um movimento muito importante no despertar e na mobilização para a luta política, principalmente contra a guerra colonial, de jovens operários e empregados urbanos, com origem no Porto e mais tarde implantado em todo o país.

Era nesta casa da “Telheira” que nos juntávamos a ouvir, no velho “Schaub-Lorenz” da minha avó, as ondas curtas que nos traziam as vozes da “Rádio Portugal Livre” e de “A Voz da Liberdade”, num sempre difícil exercício de decifração entre as mensagens e as interferências radioelétricas com que o regime as procurava vencer.

Foi nesta casa da “Telheira”, que se fizeram várias sessões de projecção do filme “O Couraçado Potemkin” de Sergei Eisenstein, seguidas de debate. O filme chegou-nos de França em bobinas de 8mm e o projector foi emprestado por mão amiga. A assistência, naturalmente selecionada, ainda assim era numerosa e atenta, mau grado os sobressaltos técnicos com saltos de imagem, do mecanismo ruidoso, da delicada operação de substituir bobinas. A arte do cinema ao serviço dos ideais nas mãos de projecionistas amadores.

Foi na “Telheira”, que eu, com a colaboração do Caetano, “fabricamos” um duplicador manual para “stencil” onde imprimimos milhares de panfletos e boletins: de denúncia do fascismo, da Guerra Colonial, de apelo a greves por melhores condições de trabalho e contra a carestia da vida (1970), de solidariedade para com as greves dos pescadores de Matosinhos e das Caxinas, de evocação do 24 de Março como “Dia Mundial da Juventude”, da solidariedade para com o Vietname; a boletins como o dos estudantes da Escola de Artes Decorativas Soares dos Reis e o boletim do MJT do Porto o “Tempo Novo”.

Foi no chão do hall da casa da “Telheira”, que pintamos as faixas de pano com as palavras de ordem que quisemos levar para o célebre comício do 31 de Janeiro no Cinema Nun’Álvares. E foi nesse chão de cimento que, sem nos darmos conta, ficaram escritas, a tinta de esmalte vivo, as palavras de ordem que furaram a trama do tecido e nos afligiram o resto da noite em esfregas difíceis e inglórias.

Foi ainda, na “Telheira”, que, com as mãos artísticas do Hermínio, trabalhamos o linóleo e fizemos um cartaz comemorativo do centenário do nascimento de “Lenine” (1970), e duplicamos uma brochura com um texto seu. Da mesma forma, talhamos o cartaz comemorativo do cinquentenário do PCP (1971).

A PIDE desesperava-se por encontrar o “aparelho técnico”. Quando prendia alguém, as buscas e os interrogatórios incidiam sobre o “aparelho técnico”. Onde está? Quem tem? Quem são os responsáveis. Na verdade, a diversidade de formas e de locais onde eram dactilografados ou gravados os materiais de informação e propaganda e as técnicas utilizadas, permitiam dizer que cada um de nós era o “aparelho técnico”. Mesmo depois de presos, os panfletos e cartazes continuaram a aparecer um pouco por todo o lado.

Foi dessa casa, que saíram duas caixas com petardo para a distribuição dos panfletos a convocar a manifestação de 15 de Abril (1971) contra a carestia: uma para a escola do Infante D. Henrique que o meu irmão Cirilo levou, outra para a EFACEC que a mim me coube e me trouxe sobressaltos inesperados. Não imaginei que, na hora de colocar o mecanismo com os panfletos, a saída da fábrica, estivesse tanta gente na portaria à espera dos que saíam. Assim, vi-me no meio de uma pequena multidão, a activar o dispositivo, pregar-lhes um involuntário mas valente susto, enquanto me punha a milhas montado na motorizada.

Nesta manifestação, eu e a minha companheira da época, a Luísa, fomos presos. Por isso, a casa da “Telheira”, onde morávamos, teve “direito” a um guarda-portão da polícia política (PIDE), perfeitamente às claras, as vinte e quatro horas do dia, e durante mais de um mês.

Mas, para mim, e como momento mais marcante, foi quando num tranquilo início de serão de Domingo (Fevereiro de 1972), me despedi dos meus pais com um “até amanhã”, partindo assim para a clandestinidade, da qual não conhecia nem os caminhos nem o fim.

Embarquei em Campanhã, no comboio com destino a Lisboa chamado “correio” por parar em todas as estações e apeadeiros. Saía por volta de meia-noite e chegava a Lisboa depois das sete. O problema é que esse comboio era um transporte de militares mobilizados para as várias frentes da guerra colonial. Em cada paragem, o embarque era pontuado por gritos aflitivos dos familiares dos soldados, principalmente os gritos desesperados das mães, que ainda hoje retenho nos ouvidos. E foi assim em todas as estações e apeadeiros. Uma viagem longa e aflitiva, para mim que ia para outra guerra, com a desvantagem de estar completamente só e por minha conta. Nas carruagens, os soldados, bebiam e cantavam, como só os soldados são capazes de fazer. Os gritos de uns não eram os gritos de outros, que já ficaram para trás. Eles arrancavam os laços de afecto da família e as raízes da terra e construíam a solidariedade da guerra, para vencer o medo e sobreviver. Como acontece com todos os soldados, em todas as guerras.

Sempre associei esta memória ao livro de Zola, “A Besta Humana”, quando relata a viagem de um comboio desgovernado, cheio de soldados que cantam, a caminho do desastre e da morte.

Em Lisboa, eu teria de cortar o cabelo, tirar fotografias tipo passe, comprar uns óculos de sol, e embarcar para o Barreiro, como se fosse o princípio de uma nova vida.

E a casa da “Telheira” lá ficou a albergar temores de uns pais que se agarravam à informação da carta que receberam em meu nome que me punha em Moscovo, carta que eu não escrevi e Rússia onde nunca estive…

Veio, enfim, o 25 de Abril.

A casa da “Telheira” não durou muito mais. Como acontece a quem faz revoluções, os novos poderes encarregam-se de os liquidar ou afastar exigindo que se portem bem e, principalmente, que não falem.

Assim, a Casa foi demolida. Também já não faria sentido, nem era rentável, ter todo aquele espaço desaproveitado, com um quintal que já não brilhava de flores e de frutos, que umas mãos fizeram e outras novas se queriam. Deu lugar a um condomínio.

Quem lá vive, ganhou conforto e qualidade, que a Revolução também foi isso. Quem lá vive, certamente não conhece a modesta história daquele sítio e até talvez haja quem tenha raiva a quem sabe e a quem a fez. Mas é assim mesmo a vida.

O meu propósito de hoje, quarenta anos após o 25 de Abril, é apenas o de prestar uma homenagem a esta Casa, uma das muitas que contribuíram serena e silenciosamente para a Revolução.

Ah, e já agora, aos que a habitavam, que aguentaram a defesa do bastião e a todos dos seus ilustres convidados, camaradas de uma geração que fez o que entendeu ser o seu dever, sem obedecer a ordens de ninguém, e deu o seu melhor, sempre desinteressadamente, com coragem e sem traições, coerentes até hoje, apesar das tramas políticas e das curvas do tempo:

Porto, 25 de Abril de 2014″

Nelson Bertini

 

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vieira da silva, a poesia está na ruaSim, é verdade, temos uma permanente dívida de gratidão para com os militares que se levantaram do chão no 25 de Abril de 1974 e que tomaram a iniciativa de derrubar uma ditadura de 48 anos e de pôr fim à guerra colonial. O Largo do Carmo cheio hoje de manhã, ao apelo da Associação 25 de Abril, homenageando Salgueiro Maia e todos os militares de Abril, foi a merecida resposta popular aos que os quiseram remeter para uma inofensiva galeria no 40º aniversário da revolução.

Mais espantoso (ou sinal dos tempos) é todavia o esquecimento generalizado de que o levantamento militar só teve sucesso porque foi logo apoiado por um poderoso levantamento popular que no Largo do Carmo e de Norte a Sul de Portugal, recusou ficar em casa, soltou amarras, quebrou barreiras, tomou as ruas, correu com o poder fascista e converteu o que poderia ser um golpe militar de incerto futuro numa revolução libertadora.

Foi esta aliança entre o povo e o MFA, pelos vistos memória incómoda e causa de urticária para alguns, que esteve na origem da mais notável, original e criativa revolução europeia da segunda metade do século XX. Que foi muito mais do que a “transição” por alguns desejada.

Olha-se para a imprensa de hoje, e é dominante o esforço de ignorar (ou excluir) das análises e testemunhos os obreiros do activismo cidadão, sindical e social que impulsionou o levantamento popular e o processo transformador e participativo que se seguiu. De facto, a direita que no poder vem ajustando contas com  esse “dia inicial inteiro e limpo”, bem gostaria que ele se tivesse resumido a uma conveniente “transição”. E que há de mais conveniente para garantir o seu futuro do que reduzir o 25 de Abril a um golpe militar e apagar o movimento e o levantamento popular que pariu a maior manifestação de sempre em Portugal, o 1º Maio de 1974?

Tem por isso razão Jerónimo de Sousa quando hoje lembrou, na sua intervenção na sessão solene do parlamento que “sem iniciativa popular o movimento militar não venceria tal como o movimento popular sozinho não teria êxito”. 

A celebração popular nas ruas dos 40 anos da revolução fica então como o testemunho e a vontade de muitos de que não será apagada a memória verdadeira e completa desse “dia inicial inteiro e limpo”. Memória que é alicerce para conquistarmos um amanhã que seja também “inteiro e limpo”.

 

 

 

 

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Cartaz 40º aniversário do 25 de Abril (Associação 25 de Abril).  Autores: Júlio Pomar e Henrique Cayatte

Cartaz 40º aniversário do 25 de Abril (Associação 25 de Abril).
Autores: Júlio Pomar e Henrique Cayatte

 

Um cartaz inteiro e limpo.

Repleto de memória.

Sem gota de saudade.

Que nos convoca e interroga.

Que fazer hoje?

 

 

 

 

 


 

 

 

 

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…Ontem, ao ouvir as buzinadelas, pensava em quantos adeptos deste ou de outro clube, loucos de alegria pelo resultado de um jogo que em nada modificaria a sua vida, estariam dispostos a sair à rua para defender o aumento do salário mínimo, o aumento das pensões, o fim das propinas ou o pleno emprego. Quantas dessas pessoas seriam capazes de vir para as ruas exigir o  fim da pobreza? Quantas dessas pessoas viriam para a rua indignadas pelos milhares de crianças que passam fome? Quantas dessas pessoas viriam para a rua exigir um combate eficaz à corrupção e uma justiça igual para todos? Quantas viriam defender uma escola pública de qualidade? Quantas destas pessoas virão para a rua no 25 de Abril gritar que não esquecemos a liberdade? Quantas dessas pessoas irão votar nas eleições europeias? Quantas irão votar nas legislativas? E quantas irão votar nos mesmos que hoje os condenam a eles à pobreza e os seus fi lhos à ignorância? Para que lhes serve este feroz orgulho de grupo e esta embriaguez selvagem da vitória se, nos momentos que importam realmente, irão baixar o pescoço onde se irá pousar a canga?

Em “O Jogo da Banca e da Bancada”, José Vítor Malheiros, no Público de hoje (texto completo aqui)

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Há 414 anos, no dia 17 de Fevereiro de 1614, foi assassinado pela Inquisição, que o condenou à morte na fogueira, o filósofo e frade dominicano Giordano Bruno. Recusando corajosamente abjurar das suas convicções, terá declarado aos seus carrascos e inquisidores, no momento da sua condenação “”Talvez sintam maior temor ao pronunciar esta sentença do que eu ao ouvi-la”.

Giordano defendeu, contra as concepções dominantes na época e o obscurantismo religioso, que o universo é infinito, povoado por infinitas estrelas e planetas, e que haveria vida inteligente noutras paragens. Pagou com a sua vida a afirmação frontal e pública das suas convicções, a liberdade do pensamento crítico de que deu testemunho.

Não resisto a transcrever aqui este excerto da sua obra Acerca do infinito, do universo e dos mundos  (edição da Fundação Gulbenkian), na sua epístola preambular, que define bem as suas escolhas de vida:

…por eu ser delineador do campo da natureza, atento ao alimento da alma, ansioso da cultura do espírito e estudioso da actividade do intelecto, eis que me ameaça quem se sente visado, me assalta quem se vê observado, me morde quem é atingido, me devora quem se sente descoberto. … só uma coisa me fascina: aquela, em virtude da qual me sinto livre em sujeição, contente em pena, rico na indigência e vivo na morte; em virtude da qual não invejo aqueles que são servos na liberdade, que sentem pena no prazer, são pobres na riqueza e mortos em vida, pois que têm no próprio corpo a cadeia que os acorrenta, no espírito o inferno que os oprime, na alma o error que os adoenta, na mente o letargo que os mata… Daí sucede que não arredo o pé do árduo caminho, por cansado; nem retiro as mãos da obra que que se me apresenta, por indolente; nem qual desesperado, viro costas ao inimigo que se me opõe, nem como deslumbrado, desvio os olhos do divino objecto… falando e escrevendo, não disputo por amor da vitória em si mesma… mas por amor da verdadeira sapiência e fervor da verdadeira especulação me afadigo, me apoquento, me atormento.

Giordano faz parte da minha galeria pessoal de referência, que honram a nossa caminhada de human0s. Faz parte dos heróis cuja vida e obra gostarei de contar aos meus netos.

Foi mérito de uma crónica do Rui Tavares no Público (ver aqui), lembrando Giordano Bruno no aniversário da sua morte, intitulada apropriadamente Hereges e Proscritos, que resolvesse aqui também recordar, mais tardiamente, a dívida de gratidão pessoal que tenho para com um homem assim, que soube estar à frente da sua época,  rasgar os véus do obscurantismo e das ideias feitas e abrir novas estradas do conhecimento. Mesmo aceitando pagar com a sua própria vida o caminho que escolheu e de que não abdicou.

É por estas e por outras que “nenhum de nós anda sozinho e até os mortos vão ao nosso lado”, como cantamos na Jornada (poema de José Gomes Ferreira musicado por Fernando Lopes Graça). Obrigado, Giordano.

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Foi hoje publicado em Diário da República – ver aqui – o Decreto-Lei 26-A/2014 que cria o sorteio “Factura da Sorte”. O Governo afirma pretender premiar deste modo a “cidadania fiscal” dos contribuintes. Através de uma lotaria em que as facturas entram como fracções para o sorteio.

Ou seja, pagamos impostos, não por que queremos um Estado que seja garante da segurança, da democracia, da protecção social, da saúde, da educação, da justiça, da boa gestão dos espaços públicos e dos bens comuns. Que combata a pobreza e as desigualdades através da redistribuição dos rendimentos. Pagamos impostos para que nos calhe em sorte um carro topo de gama.

Chamam a isto promover a “cidadania fiscal”. Também chamam ao desmantelamento da saúde e da educação públicas e aos cortes na segurança social defender o Estado Social. Mas virar o bico ao prego não altera a verdade das coisas. De facto, enquanto garantem as rendas e os benefícios fiscais aos poderosos, dão migalhas e circo à plebe.

A “factura da sorte” é a manobra rasca de quem concebe a sociedade como uma economia de casino e o Estado como instrumento dos mercados e promotor de raspadinhas.

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