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Archive for the ‘Cinema’ Category

Está de parabéns a Susana Sousa Dias, autora do premiado documentário “48”, constituído por testemunhos de presos políticos da mais longa ditadura europeia que nos oprimiu durante 48 anos.

Um filme alicerçado em fotografias de presos políticos colhidas nos arquivos da extinta e tenebrosa PIDE-DGS e nos testemunhos de presos políticos, do que resistiram, viveram e sofreram às mãos dos torcionários nos calabouços do fascismo.

Uma homenagem à melhor parte de nós nos tempos de chumbo da ditadura. Aos que ousaram dizer não, levantar a voz, sacrificar vidas, família, afectos e aspirações (como de forma comovedora é confessado logo no testemunho inicial) em nome do sonho maior de um país liberto.

Uma obra de grande sensibilidade e respeito pelo testemunho, pelo sofrimento, pela memória gravados nos corpos e nas mentes dos que sofreram e resistiram. Sabendo gerir a palavra e os silêncios e fazer dos próprios silêncios testemunho.

A obra ganharia se a autora, nalguns momentos, tivesse cuidado mais da gestão dos silêncios para prevenir alguns excessos e se tivesse conseguido uma maior diversidade e pluralidade dos testemunhos dos que resistiram, lutaram e sofreram às mãos do regime e dos seus esbirros policiais. Sem deixar de reconhecer, como faz o documentário, o papel determinante e central dos comunistas na resistência à ditadura. E em nada diminuindo esta observação o valor intrínseco deste trabalho cinematográfico que capta com grande sensibilidade o melhor da nossa humanidade.

Vale a pena ver este documentário antes que o próprio filme se torne memória fugaz, engolido na espuma dos dias. Para que a memória partilhada por muitos não desapareça tão facilmente e seja lição a não esquecer na construção do nosso futuro colectivo.

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Fui ver este filme. Tocou-me fundo. Fui vê-lo na celebração, com a minha companheira, de 39 anos de namoro. Acertámos. Sendo um documentário destes sempre uma reconstrução e selecção do real, parabéns ao realizador Miguel Gonçalves Mendes que tão bem soube captar aquelas vidas, emoções, convicções. Com a naturalidade de quem teve a arte e o engenho de se tornar, com a sua câmara, ao longo de quatro anos, parte da paisagem familiar. Pacientemente. Sem o que não seria possível o mergulho na celebração da vida de dois seres humanos espantosos, cada um a seu modo, que souberam tornar a sua união num todo mais potente que a soma das partes.

E obrigado, Pilar e José, pela inspiração deste filme para as nossas vidas. Pelo testemunho de convicções fortes, de afectos profundos e solidários, de determinação comovida de viver cada dia como se fora o primeiro do resto das nossas vidas. Uma sinfonia criada e tocada a quatro mãos.

Fica-me uma interrogação: não justificaria este documentário, com a relatividade simbólica destas coisas (vanitas, vanitatis), uma candidatura aos Óscares?

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