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Archive for the ‘Cultura’ Category

Há 414 anos, no dia 17 de Fevereiro de 1614, foi assassinado pela Inquisição, que o condenou à morte na fogueira, o filósofo e frade dominicano Giordano Bruno. Recusando corajosamente abjurar das suas convicções, terá declarado aos seus carrascos e inquisidores, no momento da sua condenação “”Talvez sintam maior temor ao pronunciar esta sentença do que eu ao ouvi-la”.

Giordano defendeu, contra as concepções dominantes na época e o obscurantismo religioso, que o universo é infinito, povoado por infinitas estrelas e planetas, e que haveria vida inteligente noutras paragens. Pagou com a sua vida a afirmação frontal e pública das suas convicções, a liberdade do pensamento crítico de que deu testemunho.

Não resisto a transcrever aqui este excerto da sua obra Acerca do infinito, do universo e dos mundos  (edição da Fundação Gulbenkian), na sua epístola preambular, que define bem as suas escolhas de vida:

…por eu ser delineador do campo da natureza, atento ao alimento da alma, ansioso da cultura do espírito e estudioso da actividade do intelecto, eis que me ameaça quem se sente visado, me assalta quem se vê observado, me morde quem é atingido, me devora quem se sente descoberto. … só uma coisa me fascina: aquela, em virtude da qual me sinto livre em sujeição, contente em pena, rico na indigência e vivo na morte; em virtude da qual não invejo aqueles que são servos na liberdade, que sentem pena no prazer, são pobres na riqueza e mortos em vida, pois que têm no próprio corpo a cadeia que os acorrenta, no espírito o inferno que os oprime, na alma o error que os adoenta, na mente o letargo que os mata… Daí sucede que não arredo o pé do árduo caminho, por cansado; nem retiro as mãos da obra que que se me apresenta, por indolente; nem qual desesperado, viro costas ao inimigo que se me opõe, nem como deslumbrado, desvio os olhos do divino objecto… falando e escrevendo, não disputo por amor da vitória em si mesma… mas por amor da verdadeira sapiência e fervor da verdadeira especulação me afadigo, me apoquento, me atormento.

Giordano faz parte da minha galeria pessoal de referência, que honram a nossa caminhada de human0s. Faz parte dos heróis cuja vida e obra gostarei de contar aos meus netos.

Foi mérito de uma crónica do Rui Tavares no Público (ver aqui), lembrando Giordano Bruno no aniversário da sua morte, intitulada apropriadamente Hereges e Proscritos, que resolvesse aqui também recordar, mais tardiamente, a dívida de gratidão pessoal que tenho para com um homem assim, que soube estar à frente da sua época,  rasgar os véus do obscurantismo e das ideias feitas e abrir novas estradas do conhecimento. Mesmo aceitando pagar com a sua própria vida o caminho que escolheu e de que não abdicou.

É por estas e por outras que “nenhum de nós anda sozinho e até os mortos vão ao nosso lado”, como cantamos na Jornada (poema de José Gomes Ferreira musicado por Fernando Lopes Graça). Obrigado, Giordano.

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Pete Seeger, que acaba de falecer aos 94 anos, é um Homem com H grande cuja história vale a pena contar aos nossos netos. Um dos maiores cantores e compositores da música popular americana e universal. Activista corajoso pelos direitos sociais, cívicos e políticos. Esteve na luta contra o nazi-fascismo, na oposição à caça às bruxas anti-comunista do macartismo dos anos 50, na oposição à guerra do Vietname e nas lutas pela paz, no movimento pelos direitos cívicos e contra o racismo nos anos 60, nas manifestações do Occupy Wall Street contra a ditadura do sistema financeiro. E sempre, sempre, coerente, corajoso e modesto, cidadão na multidão, do lado dos de baixo, dos humilhados e ofendidos. E sempre cantando as suas notáveis canções. E sempre devolvendo-nos esperança num mundo melhor. E nunca desistindo.

Cantemos as suas canções. que nos inspiram na caminhada da vida e nos dão vontade de ser mais generosos e solidários. Contemos a sua história. Para que os heróis e referências do futuro não sejam os pigmeus que nos infernizam a vida. Ou personagens menores das chamadas histórias de sucesso mercantil. Que nem notas de rodapé deveriam merecer no registo da marcha dos humanos.

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Este romance de Domingos Lopes, agora publicado, aborda a dimensão trágica de quem julga que os códigos da política e das suas relações de poder podem subjugar a gramática dos afectos. É este o fio condutor da ficção narrativa tecida pelo autor acerca de um velho militante partidário que mergulha nos abismos da infâmia pessoal por julgar que o domínio da política partidária, em cuja redoma protegida exerce o seu poder, é transferível para o domínio das relações amorosas, regido por outros códigos. Domingos Lopes aborda este tema sensível e complexo sem nunca cair em visões unidimensionais ou em juízos a preto e branco dos seus personagens, em especial do personagem principal, antes preservando com delicadeza, justiça e equilíbrio a compreensão da complexidade e contradição intrínseca dos humanos.

Confesso: li este romance de um fôlego. Gostei. Aqui fica o testemunho do que nele (entre)vi. Fica também a análise mais desenvolvida que do livro fez Paulo Sucena (ver o texto aqui), na sua apresentação em livraria cheia de amigos no passado dia 3 de  Novembro, e que me autorizou a publicar. O conhecimento da sua apresentação poderá ser o aperitivo para quem se quiser aventurar a ler um livro que vale a pena.

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De vez em quando, a RTP lembra-nos que também é serviço público, e que serve para alguma coisa o que somos obrigados a pagar. Foi assim com a série em três episódios Maior que o pensamento, apresentada em horário nobre durante três dias no período de celebração da Revolução de Abril.

Estão de parabéns Joaquim Vieira e toda a equipa que produziu este notável documentário sobre José Afonso. Cantor, poeta e criador genial. Revolucionário generoso, íntegro, humano e solidário. Maior que o pensamento. Ainda sem o tributo e a homenagem nacionais que o seu génio, a sua obra e a sua humanidade merecem.

José Afonso. De quem Gunther Walraff, esse grande jornalista apaixonado pela Revolução Portuguesa, diz no documentário que “ele falava como vivia, sem haver contradição”. Que grande inspiração de vida e que melhor confronto com os que hoje, “do alto império” prometem “um mundo novo” enquanto se acolhem à sombra e proveito dos interesses instalados.

José Afonso. Que José Mário Branco, num comovido e rigoroso testemunho, definiu pelo seu  “sentido da justiça, da decência e da solidariedade. Um revolucionário”.

José Afonso. Que no seu último concerto no Coliseu dos Recreios, já gravemente atingido pela doença que o vitimou, rodeado de amigos que com ele cantaram e desbravaram os caminhos do canto novo em português, se transfigurou, superando as limitações da sua condição física para dar aos outros o melhor de si e da sua arte. E para cantar premonitoriamente essa notável Balada de Outono “Águas das fontes calai, ó ribeiras chorai, que eu não volto a cantar”.

José Afonso. Como soube sintetizar Sérgio Godinho, seu companheiro de muitas lides e cantos, no encerramento do último dos três episódios, “o Zeca abriu janelas onde nem paredes havia“.

Um apelo: que este documentário seja rapidamente editado e distribuído, para ser partilhado e fruído por muitos mais. Testemunho valioso de um ser humano e criador de eleição, que em tempos de crise e servidão nos restitui o orgulho e a esperança da condição humana.

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Porque hoje é sábado, apetece-me partilhar aqui uma bela canção de Paco Ibañez, de onde expropriei o título deste post, que associei a um poema sobre a aventura do viver – Com unhas e dentes – de Luís Filipe Parrado:

Com unhas e dentes

Estar vivo

é abrir uma gaveta

na cozinha,

tirar uma faca de cabo preto,

descascar uma laranja.

Viver é outra coisa;

deixas a gaveta fechada

e arrancas tudo

com unhas e dentes,

o sabor amargo da casca,

de tão doce,

não o esqueces.



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O que disse Nobre:

“Desde já vos garanto: não aceitarei nenhum cargo ou mandato político-partidário e não fundarei nenhum partido político” (31/12/2010)

“Excluí a minha participação, nem como independente, no âmbito dos partidos existentes” (20/02/2011)

“A minha decisão…exclui em definitivo, como já deixei bem claro, a formação de um partido, assim como a aceitação de qualquer cargo de nomeação político-partidária” (13/03/2011)

O que agora diz Nobre para justificar a sua aceitação da candidatura a deputado pelo PSD e a promessa deste partido o candidatar a Presidente da AR:

Nada menos do que querer ajudar a “reformar o regime”. Segundo o seu comunicado, está a “preparar um programa” que submeterá “aos futuros líderes parlamentares para gerar mais consensos, para reforçar o regime e a Democracia”. Tudo isto como deputado do PSD e prometido Presidente da Assembleia da República.

Resta uma pergunta: quer Nobre enganar os portugueses para justificar o duplo salto mortal à retaguarda que deu, ou é mesmo ingénuo ao ponto de imaginar que um cargo honorífico e de representação parlamentar, sem poderes e destinado a orientar as sessões, lhe permite tamanha ambição (se lá chegar)?

Conclusão:

A primeira hipótese é desastrosa para o cidadão Nobre e já temos na política quanto baste desse género. A segunda só confirma que a sua candidatura presidencial, e agora a sua escolha política do PSD, são prova de que o activista social Nobre deu um passo maior do que a perna quando imaginou que o activismo social era passaporte bastante para uma intervenção política qualificada. Não é. Em qualquer das hipóteses, estamos conversados e passemos adiante.

Aqui deixamos a recomendação de leitura que inspirou o título do nosso post: A Queda de um Anjo“, de Camilo Castelo Branco, onde este mestre da nossa língua nos conta a história de Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda, morgado que desceu das terras de Miranda até Lisboa para se tornar deputado. Começando pelos fins, apenas citamos a edificante conclusão com que Camilo  encerra esta sua obra.



Que escreveria hoje Camilo sobre a aventurosa saga do cidadão Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre?

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E foi assim que a representação da revolta dos comuns irrompeu portas adentro de um acomodado e medíocre festival da canção que se preparava para ser mais do mesmo, supondo destinar a Jel & Cª tão só o lugar de peninha no chapéu para introduzir algum picante na apagada e vil tristeza do costume. Só que os “Homens da Luta” deram a volta por cima, viraram o feitiço contra o feiticeiro, ganharam com o voto do público contra a maioria dos júris regionais convenientemente seleccionados e instalados, e não se esqueceram até de lembrar a manifestação da “Geração à Rasca” do próximo dia 12 de Março. Uma agradável surpresa. Ou como, nestes tempos de chumbo e servidão, faíscas irrompem do ventre das artes e do espectáculo, primeiro com os Deolinda, agora com Jel & Falâncio, para animar a malta e a mobilização dos comuns contra o egoísmo e a ganância corrupta dos poderosos. Afinal, como diz a canção, a luta (também) é alegria. Sem nos levarmos demasiado a sério. Aceitando, como os “Homens da Luta”, confrontar com humor os nossos próprios estereótipos do combate social e político.

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