Feeds:
Artigos
Comentários

Archive for the ‘Eleições’ Category

Vinham em barda. Corriam como búfalos na savana. Cabos e microfones. Câmaras de televisão e flashes de fotografia. Saltos altos, mini-saias. Pastas e pastinhas. Assessores para dar e vender. Seguranças de auricular no ouvido. Altos, atentos. Cada ministro e secretário de estado fazia-se acompanhar pela sua tropa. Era um enxame de abelhas à volta de um homem. Encontrões para cá, encontrões para lá. Pisadelas e amassos. “Céus, parece uma acção de campanha!”, desabafavam alguns.

O homem dos holofotes parava nos pontos estrategicamente indicados na lista pré-definida. A senhora baixinha da BTL, com uma pasta na mão, trazia um mapa fotocopiado com a planta da feira. Os stands estavam assinalados com marcador grosso cor-de-laranja. Era onde o homem dos holofotes teria de parar, nos stands “recomendados”. As abordagens friendly resultam sempre muito naturais, acreditam eles.

Os jornalistas, triste figura, atrás da “boca” de circunstância. Que mensagem informativa se passa com este tipo de trabalho? Enfim. Vinham em barda, sim. Corriam como búfalos na savana, sim. Agora uma pergunta de circunstância: “então não prova os doces, senhor Primeiro-Ministro?” E a resposta de circunstância. Vazia. E seguia a banda. E agora outra pergunta de circunstância, mas – importante – para o directo da tv. Ajeita o cabelo, sabe que está na tela. Estridente a perguntinha: “e tem motivos para brindar? Vai brindar ao quê, senhor Primeiro-Ministro?” Gargalhadinhas dos assessores e daquele amontoado de gente. E a resposta vazia. E mais uns empurrões. E segue a banda.

O gabinete do PM tinha avisado que ele não iria falar com a imprensa à margem do tema do dia, o Turismo. Falaria no palanque sobre isso e mais nada. Era a informação oficial do gabinete. Mas das duas uma: ou o PM não sabia disto, ou não cumpriu o estipulado.

Conhecendo as falhas na comunicação do gabinete do chefe do Governo de Portugal, os jornalistas, ou pelo menos os que por ali andavam de microfone estendido debaixo do queixo do homem como que à espera da esmola da boca vazia, insistiam.

E não é que entre os queijos de São Jorge, as cortiças do Alentejo e os tamancos do Minho o homem falou sobre o Plano Grego apresentado em Bruxelas? E não é que com os dedos peganhentos da Ginginha e à frente do boneco cabeçudo do Galo de Barcelos, o homem falou sobre a Grécia? Não é inacreditável? Não há sentido de Estado na savana.

Não sei o que é pior. Se a barda de jornalistas a prestarem-se a esta figura ou se o homem dos holofotes a prestar-se àquilo. Venha o Diabo e escolha.

Siga a banda. Em barda, como eles gostam. “Para parecermos muitos”.

buf

Anúncios

Read Full Post »

António José Seguro propôs, durante no jantar socialista de Comemorações do 5 de Outubro em Alenquer, uma alteração à Lei Eleitoral para reduzir o número de Deputados na Assembleia da República.

Vários erros num único minuto de discurso.

Primeiro erro: forma. Seguro não adiantou em que moldes a proposta se concretizaria. Nem sequer o essencial: qual a redução, qual o número, para quantos deputados. É, assim, um anúncio ao jeito de Gaspar. Primeiro anuncia-se a medida e depois logo se vê. Quando calhar, logo se revelam os pormenores.

Segundo erro: timming. Fazer o anúncio em dia da celebração da República é um erro de palmatória. Os representantes do Povo e da República por excelência são precisamente os que estão na Assembleia da República. É um tiro no pé, no exercício da função representativa do poder.

Terceiro erro: conteúdo. Enquanto os próprios políticos não dignificarem as suas própria funções, vingará sempre a desconfiança entre os eleitores e os eleitos, entre o povo e os seus representantes. Amplificar a tese de que “somos demais para o que fazemos” aumenta esse fosso.

Quarto erro: substantivo. A Democracia custa dinheiro. Na Democracia gasta-se dinheiro. A Democracia precisa de dinheiro para funcionar, para trabalhar. Todos os meios humanos, financeiros, técnicos, não são demais para assegurar o normal funcionamento do sistema democrático. A Ditadura é mais barata. Mas não tem tanta piada.

Quinto erro: populismo. São frases de taberna ou de taxista que não combinam com um líder de um partido político. Muito menos para quem ambiciona um cargo de poder executivo. É uma deriva eleitoralista incompreensível, para um homem que diz não ter pressa de chegar ao poder.

Em suma, tudo mau. Esta cedência perversa de Seguro ao populismo é claramente agravada pela circunstância de ter sido proposta no dia da celebração da República, que tanto merece ser puxada para cima. Triste e infeliz. Neste tiro, o líder socialista esperava acertar no alvo e ficar bem na fotografia junto do povo que sofre e paga, mas é “o melhor do mundo”. Tiro falhado. Não tem direito sequer ao ursinho de peluche.

 

Read Full Post »

Pela primeira vez, desde o 25 de Abril, há quase 40 anos,  os partidos da direita conseguiram alcançar o seu objectivo de sempre de uma maioria, um Governo e um Presidente. Com a preciosa ajuda da desgraçada política de Sócrates e do PS que lhes abriu a porta. Com consequências profundas que agora vamos começar a enfrentar e sofrer. Os que neles votaram, os que tal recusaram e os que se abstiveram.

Os portugueses livraram-se finalmente de Sócrates, da sua desastrosa arrogância e ambição e da sua perda de contacto com a realidade. Pagando um preço muito elevado, entregando uma maioria absoluta à direita e sendo o PSD o principal beneficiado. E tendo ainda que suportar um discurso de despedida com frases de efeito fácil e a puxar ao sentimento que disfarçaram (mal) a sua arrogância e incapacidade autocrítica.

Sócrates, fazendo a declaração da praxe sobre a sua responsabilidade política pessoal na derrota, logo proclamou que não lhe ocorria nada que ele ou o PS pudessem ter feito melhor nos seis anos de governação. Ou na campanha eleitoral. E que não iria perder um minuto da sua vida futura a pensar sobre o seu exercício do poder no passado. Consciência tranquila. Porque o País fez enormes progressos nestes seis anos, e o resultado eleitoral, disse, até honra o PS. Reforçando as dúvidas conhecidas sobre se habitamos o mesmo planeta. Deixando, aos mais atentos e menos emocionados pela despedida, esta angustiante interrogação: então, porque é que os ingratos dos portugueses o despediram, infligindo uma das maiores derrotas eleitorais de sempre ao PS?

O País que votou guinou à direita nestas eleições. As esquerdas não se mobilizaram para ganhar, divididas entre o fracasso de um PS de Sócrates desnatado e rendido ao neoliberalismo e as forças à sua esquerda que não foram além de um discurso de resistência e de protesto. Sem esperança, quando mais as pessoas dela precisam para enfrentar um quotidiano de chumbo e incertezas. E quando a eficácia da própria resistência depende da apresentação das utopias concretas, das alternativas, que mostrem luz ao fundo do túnel e iluminem o caminho.

As esquerdas reduziram a sua base de apoio eleitoral. BE e PCP não beneficiaram da queda do PS, que perdeu cerca de 510 000 votos, enquanto PSD e CDS cresceram mais cerca de 560 000 votos. O BE baixou cerca de 269 000 votos e regrediu, em votos e em percentagem, para valores mais baixos que os das eleições de 2005, perdendo quase metade dos votos e metade dos mandatos. Teve uma pesada derrota, em que pagou também os erros políticos e derivas com que tem desbaratado o capital eleitoral ganho em 2009, desistindo progressivamente de ser, não apenas esquerda resistente (como é o PCP), mas construtora de uma alternativa de poder. A própria CDU teve um desgaste residual de cerca de 5 000 votantes, conquistando embora mais um mandato no Algarve e conseguindo pelo menos consolidar o seu eleitorado. Nada justificando porém um discurso eleitoral do PCP na noite eleitoral embevecido na resistência do seu eleitorado e pouco voltado para a análise da profunda mudança que representa esta vitória histórica da direita e esta extensa derrota das esquerdas.

Falamos em votos, mais do que em percentagens, porque votos são pessoas reais. Concretas. Com vontade e opinião. E é de pessoas que se faz a política e não de abstracções matemáticas. Sem negar a sua utilidade nas análises.

Olhe-se também para o comportamento dos sectores sociais perdedores e das camadas médias urbanas nestas eleições e para a distribuição do seu voto. Os estereótipos anteriores não chegam, como grelha de análise. Há prenúncios de mudança. E os protestos sociais nas ruas, impulsionados por sindicatos e movimentos sociais à esquerda, não se traduziram em deslocações para a esquerda. Veja-se com atenção como o apoio ao CDS cresceu expressivamente nos distritos de Lisboa e de Setúbal, onde PSD e CDS subiram muito além da queda do PS e captaram mais votos nos sectores sociais perdedores e nas camadas médias urbanas.

O voto útil também já não serve para explicar tudo. Pesou, certamente. Todavia, o CDS conseguiu resistir a essa pressão à direita e crescer significativamente em votos e em deputados, acompanhando a vitória eleitoral do PSD. Enquanto à esquerda isso não aconteceu. Pelo que o discurso político dos dirigentes do BE atribuindo o seu desastre eleitoral à deslocação para o PS de metade dos seus anteriores votantes, em nome do mal menor, é tentação fácil, mas é curto e contraditório com a declaração do seu líder de que se aprende mais com as derrotas do que com as vitórias.

Finalmente, olhemos para a abstenção, os votos brancos e nulos. Foi a maior abstenção de sempre, mesmo considerando os falsos eleitores. Um problema que permanece por resolver e que já afectou as eleições anteriores. 45% dos eleitores registados não votaram, ou votaram branco ou nulo. É obra, mesmo considerando o problema reconhecido dos falsos eleitores que também afectou as eleições anteriores. Um aviso muito sério sobre o estado de saúde da democracia. Deveria fazer pensar, e não ser apenas matéria para uns comentários piedosos em notas de rodapé em noite eleitoral. Logo esquecida no debate político e na repetição dos mesmos erros no exercício do poder que vão fragilizando mais e mais esta esvaziada democracia representativa. Porque tamanha abstenção e recusa de votar em partidos, sendo sinal de que a democracia por cá está doente, fragiliza também a vitória da direita. Percebe-se por que é que o Presidente da República quis lançar o anátema sobre os abstencionistas. Vai agora proibi-los de acordar e erguer-se contra o que lhes vai cair em cima?

Alinhar no discurso de resistência e de autosatisfação com a manutenção da praça-forte, como fez o PCP, ou de desculpabilização dos resultados com as transferências para o PS, como fez o BE, não é caminho para encetar a recuperação desta derrota histórica das esquerdas em Portugal.

É preciso tirar lições e consequências. Mudar de rumo. Ser apenas lugar de resistência e de protesto útil, como faz bem o PCP, não dá mais do que para assegurar a manutenção de redutos políticos fechados e de facto voltados para a manutenção do status quo.  Nem somar a lógica da resistência ao crescimento orgânico e eleitoral como caminho para a “grande esquerda”, na prática sendo uma má cópia do PCP, é solução para um BE que nasceu da esperança de muitos de constituir um projecto agregador e mobilizador da convergência de forças para construir uma alternativa de poder. Essa diversidade de projectos e culturas entre BE e PCP, que seria estimulante para a dinâmica de uma esquerda plural, também se foi perdendo pelo caminho.

Então, à esquerda, não há culpas próprias e erros políticos, tudo se resumindo a má fortuna e a problemas de contexto? Não é preciso identificá-los, não como exercício de autoflagelação, mas para assegurar alicerces mais sólidos para os combates do futuro?

Por que razão não ocorreu à direita, com o CDS, e na mesma dimensão, o fenómeno de pressão para o voto útil que se terá verificado à esquerda?

Por que razão, nesta crise, são os carrascos e os poderosos que ganham a parada com o voto de grande parte dos humilhados e ofendidos, enquanto as esquerdas levam no lombo?

Como vamos construir a agregação de forças à esquerda capaz de construir uma credível e mobilizadora alternativa de poder e de política que some esperança à resistência e ao protesto social necessários?

São algumas questões difíceis que precisam de ter respostas no debate político e na reflexão urgente a fazer nos próximos tempos pelos cidadãos e forças políticas à esquerda. Não nos desviando da resistência e do protesto sociais a crescer que a crise, o programa de governação da troika e as nuvens carregadas no horizonte exigem. Mas não abdicando de as procurar.  Para que essa resistência seja animada pela esperança e não se esgote numa resistência social sem horizontes mais largos. Porque é a esperança que dá força e eficácia à resistência. Estas eleições também nos mostraram isso. Foi a direita que ofereceu a eleitores desesperados e fartos das malfeitorias reais e das realidades virtuais de Sócrates e do PS um discurso da esperança, ilusório e envenenado embora. Ganhou. A esquerda, nas suas declinações várias, apenas ofereceu protesto e resistência. Não basta. Perdeu.

E agora, vamos aprender a sério com as derrotas?

Vai o PS romper com o processo de eucaliptização a que foi sujeito pela sua direcção socrática e o que resta de socialismo e de esquerda no PS levanta a cabeça (já não há nem poder, nem empregos, nem a teoria do mal menor para desculpabilizar más consciências). e luta ou rompe por uma mudança de rumo à esquerda? Ou vai agora ser a “oposição responsável” e prestável que a direita deseja e a que já faz rapapés, em nome dos compromissos comuns assinados com a troika, continuando a assumir a narrativa de que a sua derrota eleitoral é o sacrifício patriótico natural  de quem teve que fazer a gestão impopular, mas necessária, de uma crise?

Vai o PCP, embevecido pela resistência e consolidação do seu eleitorado, prosseguir um mero discurso de resistência e continuar a ter como limite da sua aspiração  constituir uma voz ou sindicato político da oposição social? Ou vai também abrir-se ao necessário diálogo e compromisso com as demais esquerdas para um projecto estratégico de luta efectiva de poder?

Vai o BE compreender que o seu crescimento eleitoral e orgânico não basta para chegar ao objectivo proclamado da “esquerda grande”, que não basta ser força de resistência e de protesto (porque outros, como o PCP, o fazem melhor e há mais tempo), mas que tem de corresponder à aspiração dos que nele viram um contributo para uma nova dinâmica de agregação de forças, se quer cumprir o seu destino?  Que isso pressupõe encarar a dinâmica de diálogo e de convergência de forças à esquerda, partidárias e não partidárias, como um processo e não como a produção de eventos para apropriação política?

E os muitos, muitos mil, que à esquerda estão desalinhados das forças partidárias, que lutam no activismo social, que debatem, sofrem e se interrogam sobre as formas novas de dar expressão política ao combate pelas alternativas que são precisas, como vamos somar as nossas forças às forças partidárias das esquerdas e ao movimento social, para operar o necessário debate político construtor, ou refundador, de uma esquerda maior, resistente e com propostas, com a ambição de ser futuro?

Afinal, o futuro começa hoje e também depende de nós. Se não ficarmos preguiçosamente instalados e absorvidos na espuma dos dias. Os que estão nos partidos. Os que estão fora dos partidos. Todos os que não querem ir por onde Sócrates foi e Passos Coelho promete ir, comprometido com ânsia redobrada no programa que ambos subscreveram. Somos muitos. A recomposição das esquerdas vai começar e o protesto social segue dentro de momentos. Necessariamente com força redobrada. Desejavelmente alimentado por uma perspectiva de outro futuro. Que é preciso construir. Para que haja luz ao fundo do túnel.

Read Full Post »

A declaração feita pelo PR ontem na televisão é significativa do carácter e pensamento do personagem e actor político. Não certamente por apelar ao voto dos cidadãos nas eleições legislativas. Só lhe fica bem. Mas por ter desenvolvido uma tese nova: os cidadãos que se abstiverem nestas eleições não têm autoridade para julgar e criticar a futura governação do País.

Os politólogos chamados a a comentar esta tese no Público primaram sobretudo por não lhe atribuir importância, reduzindo tudo a um mero apelo à participação. Erraram e subestimaram. Apenas Tiago Fernandes se aproximou da questão essencial :  “A função dos políticos, em época de eleições, é estimular a participação. Se os cidadãos não votam, é porque os políticos não os mobilizam. O que Cavaco Silva devia fazer era pedir aos partidos para falarem de coisas que interessem às pessoas.”

Ora nestas eleições os partidos que determinam a governação futura do País tudo fizeram para esconder dos cidadãos o que se vai seguir e o que se propõem fazer. E o seu comportamento anterior, sistematicamente ignorando e fazendo o contrário do que prometiam em eleições, deu um golpe profundo na democracia representativa.

Mas resta outro detalhe. Ignorado nos comentários. Mais preocupante por trazer outra vez à superfície a pulsão autoritária deste Presidente (lembram-se do seu discurso de ajuste de contas na posse? Lembram-se por que foi despedido pelos portugueses quando Primeiro-Ministro?):

Quer dividir os portugueses, todos os cidadãos, em duas categorias: os de primeira, que votam e podem opinar politicamente; os de segunda, que não votam, e deviam ser excluídos do espaço público e da cidadania. Se a teoria pega, onde vamos parar?

Para registo de interesses e opinião: não advogo a abstenção. A democracia política fortalece-se, exercendo-a. Votando. Mas os que se abstêm, por boas ou por más razões, são cidadãos como eu. O anátema e a exclusão não melhoram a democracia. Empobrecem-na.

Resta-nos uma interrogação que também remete para a psicanálise: será que a declaração azeda e punitiva de Cavaco Silva tem a ver com o trauma de ter sido o Presidente eleito com menos votos de todos quantos foram eleitos desde o 25 de Abril? Teve uma abstenção recorde (votaram 46,4%). Foi eleito com o voto de apenas 23,1% dos eleitores registados nos cadernos eleitorais. Menos de um quarto dos eleitores (ver aqui).

Há feridas, pelos vistos, que não cicatrizam. E traumas que permanecem. Tenhamos cuidado.

Discurso de Presidente da República Quem não vota não pode criticar políticas públicas?
Ana Cristina Pereira
Edição Público Lisboa
05 Jun 2011

Read Full Post »

Caiu o pano. Acabou o show. Agora, as escolhas e os votos. A vida segue dentro de momentos.

Não. Não vamos entrar na lamentação de que esta campanha foi paupérrima e que não houve debate de ideias. Não foi pior nem mais pobre do que as anteriores. Nós é que temos tendência para entoar sempre essa ladainha como passa culpas próprio e dos demais.

Já sabemos. Partiu-se para estas eleições com os problemas de fundo por resolver,  que degradam o esclarecimento e o debate político no espaço público. Com uma democracia representativa fragilizada, cada vez mais corroída e esvaziada pela transferência dos poderes fácticos para instâncias não eleitas, supranacionais e distantes dos cidadãos. Votamos para órgãos de “poder” com poderes cada vez mais limitados e condicionados, enquanto os que decidem estão cada vez mais longe e protegidos por espessas burocracias, tapeçarias e gabinetes.

Todavia, nestas eleições, os portugueses tinham o direito e o dever de serem muito mais exigentes. O que se decide é mais profundo. Afectará duradouramente as nossas vidas, o sistema político e social em que vamos (sobre)viver. Trata-se de abdicar ou não da soberania política que converte os deputados, o parlamento e o governo em figurantes às ordens da alta burocracia de Bruxelas e do FMI. Em executores de um programa de governação previamente aprovado e não escrutinado nem debatido pelos portugueses. Trata-se ainda de determinar como vai ser enfrentado e quem vai gerir este compromisso assinado com a troika. O que também não é de somenos.

Pois. Os cidadãos tinham o direito e o dever de serem muito exigentes para com os partidos políticos. Até porque à primeira quem quer cai e à segunda cai quem quer. E já caíram muitas vezes. Mas não foram. Preparam-se, parece, para cair mais vezes.

Os partidos troikistas aproveitaram. Assim passaram a campanha eleitoral sob os pingos de chuva e com a mínima molha possível.

Os portugueses apenas tiveram direito ao espectáculo do camaleonismo genético e hábil de Paulo Portas a fazer esquecer negócios obscuros de sobreiros e submarinos. E à ópera bufa das guerras verbais de alecrim e mangerona entre Sócrates, armado em defensor de um Estado Social que esvaziou como ninguém, e Passos Coelho, corrigindo e explicando à noite o que tinha querido dizer de manhã. Ao mesmo tempo que ia tentando ter mão numa tropa desalinhada, a salivar pelo poder e pela oportunidade de executar um programa ultraliberal.

Todos eles, Portas, Coelho e Sócrates, unidos num compromisso essencial: nada dizer sobre as políticas públicas e as medidas com que cada um propõe concretizar o programa de governação que já assinaram com a troika.

Ora era sobre isso que deviam explicações aos portugueses. Mas foi disso que conseguiram escapar em toda a campanha eleitoral. Safando o cavalinho da chuva. Até quando vieram a terreiro debater a redução da taxa social única, tentaram vender a quadratura do círculo de o fazer sem golpear a Segurança Social e sem aumento de impostos. Como se tal fora possível. Alcançando a proeza de pôr os portugueses mais confundidos no final da conversa do que no seu início. E suscitando a legítima suspeita sobre as agendas e os acordos escondidos e as trafulhices em marcha nas costas e contra os explorados do costume.

Disse Passos Coelho, numa das suas frases de final de campanha, que “a maioria que estou a pedir aos portugueses não é para ter a vida mais fácil “. É verdade. É para tornar a vida mais difícil, mas aos portugueses.

“Em Portugal quem elege o Governo são os portugueses, não é a troika”, proclamou logo Sócrates, um artista a aproveitar mais uma derrapagem verbal de Passos Coelho, quando invocou o apoio da troika para governar Portugal. É verdade. Mas quem, se não Sócrates, Coelho e Portas, assinaram a carta de rendição com a troika que converte o Governo, se aceitar tal programa, num grupo de capatazes para administração de um protectorado de Bruxelas e do FMI?

Percebe-se assim por que os partidos vassalos da troika não tugiram nem mugiram por o texto da rendição continuar, não por acaso, em inglês e sem tradução oficial disponível para português. Coisa muito conveniente para os que o subscreveram, não é? Embora nada coerente com as solenes proclamações passadas em defesa da língua portuguesa que os mesmas costumam usar noutras circunstâncias para provar o seu amor pátrio.

Compreende-se. O povo não precisa de ler textos tão complicados. Basta que vote nas elites governantes do costume que, passados os desacatos eleitorais de circunstância, terão que se entender. Esse é pelo menos o apelo mais veemente dos grandes interesses.

À esquerda, as esquerdas resistiram, protestaram e combateram as teorias da inevitabilidade, o acordo de rendição, a exigência da renegociação da dívida. Rejeitando, e bem, a acusação fácil de que assim defendem o calote. Mas porque caloteiros são os que proclamam o respeito por uma dívida em condições usurárias, cujo pagamento sabem que o País não pode e não vai cumprir. Sendo mais sério e mais justo prevenir o calote através de um processo que, assente numa auditoria à dívida externa, possibilite renegociar os prazos e os juros. E que possibilite corrigir a monstruosidade de o Estado português ter que pagar nos próximos anos 30 000 milhões de euros em juros, pelo empréstimo usurário que a troika impôs para protecção dos credores externos e para recapitalizar e avalizar o sistema financeiro. Esse é um combate e uma semente de que certamente mais tarde se colherão frutos.

Mas as esquerdas não foram capazes de passar convincentemente do protesto e da denúncia para a proposta de uma alternativa credível e socialmente mobilizadora. Alternativa para a governação do País, esclarecendo qual a sua proposta de bloco de forças sociais e políticas necessário para a sustentar. Alternativa, com um programa coerente de políticas públicas para enfrentar a crise e as dependências externas. Alternativa que ousasse disputar a hegemonia no espaço público e no debate de ideias às teorias da inevitabilidade da rendição ao programa neoliberal da troika. Nem foram capazes de articular uma narrativa convincente e clara quanto à sua relação com o espaço político do PS, que continua a ser parte da equação para se construir a prazo uma solução de governação à esquerda.

Assim, entre as tensões do voto útil e do voto por convicção, as esquerdas à esquerda do PS não vão sair destas eleições fortalecidas para a construção da “esquerda grande” que é preciso (e sobre isto já escrevi aqui e aqui). A proposta de um caminho alternativo não pode ser uma nota de rodapé num discurso de resistência e de protesto. As pessoas precisam(os) de uma utopia concreta, de uma narrativa de esperança para se mobilizarem nestes tempos de chumbo.

Resistindo melhor nestas eleições  pela maior solidez da sua base de apoio (o PCP), ou mais ameaçado pela erosão de uma parte flutuante do seu eleitorado socialista de esquerda,  pagando erros políticos recentes e má fortuna (o BE), o universo muito amplo das esquerdas, nas suas diversas sensibilidades, precisa de não adiar mais a urgência de um debate necessário:

Passar dos eventos esporádicos e das desconfianças continuadas para a construção comum e plural de um processo consistente de convergência programática e de acção.

O que aí vem exige-o.

Read Full Post »

Na sua crónica de hoje no Público, com a habitual frontalidade e rigor do seu verbo, José Vítor Malheiros diz que “os socialistas do PS só vão aparecer quando tiverem a certeza que Sócrates já não respira”, concluindo:

Achará o PS que os benefícios da acção governativa do PS (também os houve) compensam e devem fazer esquecer as aldrabices, as manipulações, as negociatas? Quererá o PS adoptar oficialmente a atitude dos autarcas corruptos que “roubam mas fazem”? Serão os ajustes directos aos amigos, as PPP sem controlo e a sonegação de informação uma espécie de “imposto revolucionário” que o povo deve pagar directamente para o bolso de alguns beneficiários em contrapartida de ainda termos o Serviço Nacional de Saúde? Acha o PS que as benesses que concede ao país devem ter como paga a sua absoluta impunidade? Defenderá o PS a monarquia absoluta?

Não sei se o PS percebe a nódoa que o consulado socratista constitui para si, a desvergonha que representa e que transformou em bandeira, o descrédito que trouxe para a política e aos políticos, o autêntico escarro que significa na cara do eleitorado em geral e dos socialistas em particular. Parece que não.”

Nada a acrescentar nesta matéria. O resto do artigo está aqui.

.
A nódoa

Edição Público Lisboa
31 Mai 2011

Espero que Mário Soares tenha oportunidade de participar noutra campanha eleitoral, noutro ciclo de vida do seu partido. Isto porque deixar como testamento político um apelo ao voto em José Sócrates seria um final particularmente triste para um homem…leia mais…

Read Full Post »

O jantar tinha sido servido. A sala estava cheia, quente, abafada, povoada. Na mesa mais ruidosa, a dos militantes do Ribatejo que se deslocaram “em carro próprio” até Oliveira do Bairro, ecoavam gargalhadas espalhafatosas, derramadas sobre os copos cheios de tinto. Subitamente surgiu um burburinho diferente na sala, uma agitação qualquer, uma tensão nervosa.

Uns gritinhos de senhora. As mãos sobre os cabelos. Ar de nojo. O som abafado do arrastar das cadeiras de plástico de pessoas que admitiam sair da sala. Houve quem pusesse guardanapos sobre a cabeça. Mais uns gritinhos de senhoras muito maquilhadas. O olhar de condenação irónico, por parte de alguns machos com quatro botões da camisa abertos, mostrando os pêlos do peito e o fio de ouro.

Ele falava no palanque. É cabeça de lista por Aveiro, tinha que correr tudo na perfeição. Era a sua noite, no seu distrito. O sorriso cintilante e os gestos firmes de Portas disputavam a atenção perante aquele outro protagonista da noite de Oliveira do Bairro. Um morcego, perdido, atarantado, cego pelos holofotes, surdo pelas palmas, gargalhadas e gritos, inebriado pelo cheiro dos perfumes, do vinho e da carne assada. Voava, tonto, sobre os ninhos de cabelos arranjados.

Portas é de palco. Não gosta que lhe tirem protagonismo. O povo devia estar ali para ouvi-lo e não para admirar um solitário morcego. Chegou a desvalorizá-lo: “não se preocupem com o morcego, é como as sondagens”. Mas o povo não tirava os olhos do tecto. Portas tinha de mudar de estratégia. Enfrentou-o cara-a-cara: “meu caro morcego”, disse. A estratégia resultou, ao sentir os sorrisos na sala. “Será um indeciso”, acrescentou confiante. Agarrava a sua plateia. O povo voltava a olhar para o palanque. Colocou a mascarilha, vestiu a capa e convidou o morcego para ser o seu Robin. O protagonista voltava a ser o Batman. 

Ana Catarina Santos

Read Full Post »

Older Posts »