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Archive for the ‘Imprensa’ Category

Este é o título de um manifesto hoje divulgado por jornalistas. Porque o programa de austeridade, recessão e empobrecimento do país também bate fundo na comunicação social e nos seus trabalhadores. É usado para acentuar a concentração e o domínio do poder económico sobre os média. Para reforçar o domínio do pensamento único e reduzir e constranger o pluralismo na imprensa. Para submeter e condicionar os jornalistas, desvalorizar e sobreexplorar o seu trabalho pelo medo, pela precarização e pelo despedimento.

A nossa solidariedade por tudo isto aos jornalistas da Lusa, que hoje iniciaram a sua greve e aos do Público, que amanhã fazem a sua, contra a onda prometida de despedimentos. Não lutam apenas pelos seus postos de trabalho. Lutam também, em nome de todos nós, pelo direito a uma comunicação social digna, com meios e com qualidade.

A comunicação social e a democracia são inseparáveis. Empobrecer e reduzir aquela põe em causa esta.

Aqui fica o texto do manifesto e os seus signatários. Que a todos nos convoca para a necessária acção colectiva em defesa de uma imprensa plural, qualificada e livre, condição de uma sociedade democrática e de uma cidadania responsável, esclarecida e informada.

«A crise que abala a maioria dos órgãos de informação em Portugal pode parecer aos mais desprevenidos uma mera questão laboral ou mesmo empresarial. Trata-se, contudo, de um problema mais largo e mais profundo, e que, ao afectar um sector estratégico, se reflecte de forma negativa e preocupante na organização da sociedade democrática.
O jornalismo não se resume à produção de notícias e muito menos à reprodução de informações que chegam à redacção. Assenta na verificação e na validação da informação, na atribuição de relevância às fontes e acontecimentos, na fiscalização dos diferentes poderes e na oferta de uma pluralidade de olhares e de pontos de vista que dêem aos cidadãos um conhecimento informado do que é do interesse público, estimulem o debate e o confronto de ideias e permitam a multiplicidade de escolhas que caracteriza as democracias. O exercício destas funções centrais exige competências, recursos, tempo e condições de independência e de autonomia dos jornalistas. E não se pode fazer sem jornalistas ou com redacções reduzidas à sua ínfima expressão.
As lutas a que assistimos num sector afectado por despedimentos colectivos, cortes nos orçamentos de funcionamento e precarização profissional extravasa, pois, fronteiras corporativas.
Sendo global, a crise do sector exige um empenhamento de todos – empresários, profissionais, Estado, cidadãos – na descoberta de soluções.
A redução de efectivos, a precariedade profissional e o desinvestimento nas redacções podem parecer uma solução no curto prazo, mas não vão garantir a sobrevivência das empresas jornalísticas. Conduzem, pelo contrário, a uma perda de rigor, de qualidade e de fiabilidade, que terá como consequência, numa espiral recessiva de cidadania, a desinformação da sociedade, a falta de exigência cívica e um enfraquecimento da democracia.
Porque existe uma componente de serviço público em todo o exercício do jornalismo, privado ou público;
Porque este último, por maioria de razão, não pode ser transformado, como faz a proposta do Governo para o OE de 2013, numa “repartição de activos em função da especialização de diversas áreas de negócios” por parte do “accionista Estado”;
Porque o jornalismo não é apenas mais um serviço entre os muitos que o mercado nos oferece;
Porque o jornalismo é um serviço que está no coração da democracia;
Porque a crise dos média e as medidas erradas e perigosas com que vem sendo combatida ocorrem num tempo de aguda crise nacional, que torna mais imperiosa ainda a função da imprensa;
Porque o jornalismo é um património colectivo;
Os subscritores entendem que a luta das redacções e dos jornalistas, hoje, é uma luta de todos nós, cidadãos.
Por isso nela nos envolvemos.
Por isso manifestamos a nossa solidariedade activa com todos os que, na imprensa escrita e online, na rádio e na televisão, lutando pelo direito à dignidade profissional contra a degradação das condições de trabalho, lutam por um jornalismo independente, plural, exigente e de qualidade, esteio de uma sociedade livre e democrática.
Por isso desafiamos todos os cidadãos a empenhar-se nesta defesa de uma imprensa livre e de qualidade e a colocar os seus esforços e a sua imaginação ao serviço da sua sustentabilidade.»

Proponentes:
Adelino Gomes * Alfredo Maia (Presidente do Sindicato de Jornalistas) * Ana Cáceres Monteiro (Media Capital) * Alexandre Manuel (Jornalista e Professor Universitário) * Ana Goulart (Seara Nova) * Ana Romeu (RTP) * Ana Sofia Fonseca (Expresso) * Ana Tomas Ribeiro (Lusa) * Anabela Fino (Avante) * António Navarro (Lusa) * António Louçã (RTP) * Camilo Azevedo (RTP) * Carla Baptista (Jornalista e Professor Universitária) * Cecília Malheiro (Lusa) * Cesário Borga * Cristina Martins (Expresso) * Catarina Almeida Pereira (Jornal de Negócios) * Cristina Margato (Expresso) * Daniel Ricardo (Visão) * Diana Ramos (Correio da Manhã) * Diana Andringa * Elisabete Miranda (Jornal de Negócios) * Frederico Pinheiro (SOL) * Fernando Correia (Jornalista e Professor Universitário) * Filipe Silveira (SIC) * Filipa Subtil (Professora Universitária) * Filomena Lança (Jornal de Negócios) * Hermínia Saraiva (Diário Económico) * Joaquim Fidalgo * Joaquim Furtado * Jorge Araújo (Expresso) * José Milhazes (SIC/Lusa) * José Vítor Malheiros * João Carvalho Pina (Kameraphoto) * João Paulo Vieira (Visão) * João d’Espiney (Público) * José Luiz Fernandes (Casa da Imprensa) * José Manuel Rosendo (RDP) * José Rebelo (Professor e ex-jornalista) * Luís Andrade Sá (Lusa) * Luís Reis Ribeiro (I) * Liliana Pacheco (Jornalista e investigadora) * Luciana Liederfard (Expresso) * Luísa Meireles (Expresso) * Maria de Deus Rodrigues (Lusa) * Maria Flor Pedroso (RDP) * Maria Júlia Fernandes (RTP) * Martins Morim (A Bola) * Manuel Esteves (Jornal de Negócios) * Manuel Menezes (RTP) * Margarida Metelo (RTP) * Margarida Pinto (Lusa) * Mário Nicolau (Revista C) * Miguel Marujo (DN) * Miguel Sousa Pinto (Lusa) * Mónica Santos (O Jogo) * Nuno Pêgas (Lusa) * Nuno Aguiar (Jornal de Negócios) * Nuno Martins (Lusa) * Óscar Mascarenhas (DN) * Patrícia Fonseca (Visão) * Paulo Pena (Visão) * Pedro Rosa Mendes * Pedro Caldeira Rodrigues (Lusa) * Pedro Sousa Pereira (Lusa) * Pedro Manuel Coutinho Diniz (Professor Universitário) * Pedro Pinheiro (TSF) * Raquel Martins (Publico) * Rui Cardoso Martins * Ricardo Alexandre (Antena 1) * Rosária Rato (Lusa) * Rui Peres Jorge (Jornal de Negócios) * Rui Nunes (Lusa) * Sandra Monteiro (Le Monde Diplomatique) * Sofia Branco (Lusa) * Susana Barros (RDP) * Susana Venceslau (Lusa) * Tomas Quental (Lusa) * Tiago Dias (Lusa) * Tiago Petinga (Lusa) * Vítor Costa (Lusa).

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Edição de hoje do Inimigo Público:

– Cavaco inscreve-se em clínica para curar vício do Facebook
– Única foto do acordo do PEC 4 está no telemóvel de Angela Merkl
– Processo Face Oculta: robalos querem aparecer com voz distorcida
– Juiz Carlos Alexandre usa escutas a Sócrates como música ambiente para fazer Pilates
– Promessa de Portas se chegar ao Governo: desta vez vai tirar fotocópias de um lado e de outro para poupar
– Senhores do BCE já têm palavra-passe do blogue Corporações

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O Departamento de Justiça norte-americano intimou os responsáveis do Twitter a fornecerem dados sobre a correspondência privada, contactos e outros dados pessoais de vários cidadãos suspeitos de colaboração com o WikiLeaks, incluindo o soldado Bradley Manning (preso e incomunicável há meses) e uma deputada do Parlamento da Islândia (!). Prossegue assim a declarada cruzada da Administração Obama para perseguir e julgar Assange, principal responsável do WikiLeaks, cidadão australiano e que não reside nos EUA, agora não hesitando em invadir a privacidade doutros cidadãos, incluindo estrangeiros e mesmo uma deputada de um outro país soberano (ver aqui a informação completa).

Este é o mesmo país cujos governantes ainda se afirmam guardiães da liberdade e polícias do mundo.Que criticaram as pressões da China sobre o Google, que invadiram o Iraque e o Afeganistão em nome da imposição aos outros da “sua” liberdade e democracia, que recusam aceitar a submissão dos seus cidadãos ao Tribunal Penal Internacional (achando muito bem que os outros se submetam), certamente porque já vai extensa a lista dos seus crimes de guerra e contra a humanidade em vários teatros de operações.

Como já alertou a organização WikiLeaks, a pressão judicial dos EUA sobre o Twitter provavelmente também se exerceu sobre o Google e o Facebook, que não desmentiram tais pressões. Recordemos que a WikiLeaks tem milhão e meio de seguidores no Facebook e 600 000 no Twitter. Ou seja, à boleia da divulgação pública dos documentos do Departamento de Estado, os EUA preparam uma gigantesca operação repressiva e invasora da liberdade dos cidadãos na Internet e nas redes sociais, contando certamente com a cooperação de países “amigos” e mandando às urtigas as proclamações de amor à democracia.

É tempo de a comunidade de cidadãos que defendem a liberdade na Internet e se opõem ao seu apetecido controlo pelos Estados, pelas transnacionais e pelos poderes fácticos, reforçarem a vigilância e a mobilização global para impedir o assalto à privacidade em curso. Agora a WikiLeaks e quantos a apoiam, depois quem mais e o quê?

Pagaremos caro a indiferença, a passividade ou o conformismo…

E vem-nos à memória um conhecido poema atribuído a Brecht, de que aqui fica uma versão conhecida:

A indiferença

Primeiro levaram os comunistas,
Mas eu não me importei
Porque não era nada comigo.
Em seguida levaram alguns operários,
Mas a mim não me afectou
Porque eu não sou operário.
Depois prenderam os sindicalistas,
Mas eu não me incomodei
Porque nunca fui sindicalista.
Logo a seguir chegou a vez
De alguns padres, mas como
Nunca fui religioso, também não liguei.

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Apelo no Washington Times "Assassinate Assange" ou a recuperação reaccionário do imaginário dos "western"

À medida que alguma imprensa internacional vai fazendo o seu trabalho de análise aos mais de 251 000 documentos disponibilizados pelo Wikileaks sobre as mensagens classificadas, confidenciais ou secretas, relativas à política e às relações internacionais dos EUA, vai-se tornando mais patente a duplicidade e a hipocrisia dos governantes da grande potência imperial e de outros países,  na contradição factual evidenciada entre os seus discursos para consumo público e a realidade do que pensam e fazem. Porque não é apenas a crueza e a dureza da política externa norte-americana que é revelada e questionada, mas também, por exemplo, a duplicidade hipócrita das ditaduras árabes suas aliadas no Médio Oriente ou a relação entre a máfia e a governação de Putin na pseudo-democracia russa.

A reacção dos poderosos a estas revelações é sintomática de que a democracia política e a liberdade de expressão e informação param na fronteira dos seus interesses e têm um mero valor instrumental nas democracias liberais cada vez mais corroídas por dentro pelo capitalismo desenvolvido de que seriam a forma contemporânea. As ameaças e perseguições ao Wikileaks e ao seu responsável sobem de tom e são agora legitimadas por uma vaga de analistas, comentadores e actores políticos, desde os  que criticam o Wikileaks por, com os seus actos, pôr em causa a “transparência” e a “decência” nas relações internacionais, aos que não hesitam em apelar à perseguição, ao julgamento por espionagem e ao assassinato de Julian Assange e da equipa do Wikileaks.

Comecemos por lembrar estes últimos, que são ilustração chocante do absoluto naufrágio moral e político dos mais assanhados defensores do establishment neoliberal e ultraconservador, e do modo como têm uma visão despudoradamente instrumental dos direitos humanos e da liberdade.

O que é mais expressivo na perseguição internacional em que os poderosos do mundo se empenham contra o Wikileaks e a equipa responsável, é que já não lhes basta desactivar o mensageiro, como  tentaram nos EUA, expulsando-a dos servidores com a prestimosa colaboração da Amazon, ou na China (les bons esprits se rencontrent…), onde também bloquearam e censuraram o acesso ao Wikileaks (ver aqui). Querem liquidá-los fisicamente.

É o que afirmam abertamente, entre outros, um conhecido comentador político ultra-conservador norte-americano, Jeffrey Kuhner,  na sua coluna no Washington Times (ver aqui),  proclamando “Assassinate Assange!”; o ex-candidato republicano à Presidência dos Estados Unidos e comentador da Fox News, Mike Huckabee (ver aqui), Thomas Flanagan, assessor do primeiro ministro canadiano (ver aqui); o apresentador da Fox, William O’Reilly, também comentador da Fox News (ver aqui) e activistas da extrema-direita populista do Tea Party. A que se juntam a fatwa – porque a intolerância fundamentalista não existe apenas no mundo muçulmano –  lançada pelo senador “democrata”  conservador  Joe Liberman, apelando à perseguição de Assange, e a  inevitável Sarah Palin (ver aqui) que, aproveitando para responsabilizar Obama, exigiu que Assange fosse “caçado” e o equiparou à Al-Qaeda.

A histeria do império contra a equipa da Wikileaks atinge o ponto de se continuarem a imaginar donos do mundo e estarem a debater a possibilidade de acusarem de espionagem o australiano Assange e os seus colegas de equipa, de pretenderem julgá-los nos EUA e de acordo com as leis norte-americanas, apesar de estarem fora da jurisdição norte-americana. São estes os mesmos que apoiaram e conseguiram que os cidadãos norte-americanos não fossem abrangidos pelo Tribunal Penal Internacional, que serve para julgar sérvios mas não pode julgar os  filhos do Tio Sam que sejam culpados de crimes contra a humanidade. Uma conveniente excepção protectora dos executantes do seu terrorismo de Estado. Ou, dito de outro modo, sempre dois pesos e duas medidas.  

E agora, vamos ver o comentário e a argumentação de alguns analistas de serviço da nossa praça, que acham que o Wikileaks é que põe em causa a transparência ou a decência nas relações internacionais:

 

– Jorge Almeida Fernandes, em artigo no Público de ontem, proclamava em título que a “Wikileaks mata a transparência“, usando uma expressão de um jornalista norte-americano, e invoca em seu apoio outras opiniões publicadas concordantes com a teses de que a transparência do Estado implica uma reserva de segredo, que as sociedades não sobrevivem sem Estado e que a “ditadura” da transparência faz desmoronar o Estado.

– José Cutileiro, ex-embaixador e comentador do Expresso, fala na sua habitual coluna desta semana na “indecência” de serem revelados arquivos secretos relativos ao presente, de como isso põe em causa a diplomacia necessária na relação entre Estados, defende a tese idílica de que as democracias (de que dá o exemplo dos EUA…) dispõem de mecanismos que permitem aos povos saber “o que é feito em seu nome” e propõe a tese de que “a transparência não é uma virtude, é um estratagema de comunicação“. 

“É a política, estúpidos!”

 

Desta vez, apesar de em campos opostos de pensamento, estamos de acordo pelo menos com uma tese expressa por Pacheco Pereira no seu artigo de ontem no Público, embora discordando de muitas das suas conclusões no mesmo texto: “o principal risco no modo como defrontamos estas ‘revelações’ é considerar que elas são jornalismo, quando elas são em princípio e na sua essência um acto político (sublinhado nosso)” e que, “nos documentos revelados pelo Wikileaks, há muitas ‘histórias’  jornalísticas fidedignas e muita história para fazer a prazo. Mas isso só é válido se os documentos forem entendidos como ‘fonte’  e não como produto final, porque entender os documentos em si mesmo como sendo as ’revelações’ é o mesmo que considerar que imagens não editadas são jornalismo televisivo ”.

De facto, a colocação no espaço público dos documentos pelo Wikileaks é um acto político de combate à hegemonia informativa do Império que procura gerir o discurso público  do poder conforme os seus objectivos de dominação. Em que cidadania e sociedade civil são termos invocados pelo poder na medida em que não aborreçam os interesses instalados dos poderosos.

O problema para os poderes instalados é que os muitos que não se acomodam a esse jogo nem aceitam essa dominação, também usam aquilo que o capital financeiro sabe usar tão bem para hegemonizar e expandir os mercados a todas as esferas da vida humana e que o poder político utiliza para expandir a sua dominação sobre os comuns – as redes sociais e as imensas possibilidades de comunicação disponibilizadas pelas novas tecnologias de informação. É o que fez o Wikileaks e o que outros wikileaks farão se silenciarem este.

Porque é de combate pelo acesso aos factos, de combate no domínio da liberdade de expressão, em suma, de política, que se trata.

É sabido que está no código genético deste poder político tentar manter reserva e distância em relação ao funcionamento da “caixa negra” do sistema onde  forja as decisões e as alianças políticas, ao mesmo tempo que não hesita, qual Big Brother, em invadir e liquidar o espaço privado das pessoas. Só que o realismo político nas relações internacionais e na esfera do poder  invocado pelos analistas de serviço como justificação para a distância e a reserva também justifica a iniciativa dos cidadãos de invadir o espaço da política lutando pela alteração das relações de força e pelo acesso à informação e aos factos que lhe são recusados.

É então também natural que as imensas minorias cidadãs que não se conformam com a narrativa política deste poder imperial lutem por trazer à luz do dia o que o poder quer esconder,  por arrancar da “caixa negra” do sistema o máximo de informação, o máximo de factos, nacos parciais duma verdade que lhes escapa e é negada, para que possam condicionar os poderes que, quanto mais absolutos e opacos, mais são absolutamente corruptos e corruptores.

Compreende-se a ira dos poderosos contra o Wikileaks quando a hipocrisia dos discursos públicos é confrontada com a realidade dos gabinetes, o seu esforço para silenciar os servidores informáticos e impedir o acesso, nos EUA como na China. Mas compreendem-se ainda melhor as iniciativas cidadãs, como o Wikileaks, que desafiam a cólera dos poderosos para pôr a nu as suas narrativas.

Adaptando uma célebre frase usada em tempos no debate político norte-americano (então relativa à “economia”), afinal “É a política, estúpidos!” . Ou, doutro modo, “Habituem-se!, exclamação célebre de um bem instalado comentador e político situacionista, então com outro sentido. Mas as palavras e expressões vão sendo usadas e ganham novos sentidos e por isso,  António Vitorino, não resistimos à sua reapropriação.

É o Wikileaks que afecta a transparência nas relações internacionais ou a própria opacidade genética do poder político?

 

Afinal, se não fosse o escândalo “Watergate”,  Nixon teria sido apeado do poder e condenado pelos seus crimes? Se não fossem as imagens trazidas à praça pública sobre Abu Ghraib, teriam sido desmascaradas as torturas e assassinatos de prisioneiros realizados pelas tropas imperiais ocupantes do Iraque, em absoluta contradição com o discurso do poder e com o jornalismo “embedded” inventado pelos norte-americanos para controlar jornalistas enquadrados nas suas tropas? E se não fossem os testemunhos e informações trazidos à praça pública, do interior dos corredores do tal poder político que merece a reserva da distância, saberíamos o que sabemos sobre a monstruosa manipulação montada por Bush e Blair para justificarem a invasão do Iraque com a acusação de armas nucleares que Saddam Hussein nunca possuiu?  Se não fossem as fugas de informação, saberíamos em Portugal de numerosos factos que ilustram a relação promíscua entre poder político e negócios que está a envenenar e corromper a democracia política a um nível insustentável?

Por fim: o sítio www.wikileaks.org  foi silenciado, mas renasceu em www.wikileaks.ch !  A narrativa da tensão entre poder e democracia vai continuar…

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A revelação pública,  pela equipa de Julian Assange, de 251 287 documentos classificados do Departamento de Estado dos EUA, constituindo a maior fuga para o espaço público de documentação confidencial e secreta, têm confirmado a duplicidade do discurso dos poderosos e como tentam manipular, enganar e condicionar os cidadãos. Como refere o excelente trabalho da Visão, estes documentos “põem a descoberto a política externa norte-americana, trazem para a luz do dia os seus mecanismos e fontes, deixam em evidência as suas debilidades e obsessões e, no conjunto, facilitam a compreensão, por parte dos cidadãos, das circunstâncias em que se desenvolve o lado obscuro das relações internacionais“.

Quando os governantes dos EUA e de outros países, os ditadores árabes e numerosos comentadores situacionistas reagem atacando e perseguindo Julian Assange, agora sujeito a mandato de captura internacional, querem matar o mensageiro em vez de esclarecerem a mensagem, para assim fugirem às suas responsabilidades políticas.

Como é que Hillary Clinton continua como Secretária de Estado de Obama, se for confirmado que deu instruções para  que os diplomatas dos EUA fizessem espionagem da vida e actividade do Secretário-geral da ONU e de responsáveis políticos de outros países?

Que tem o Sr. Luís Amado, MNE de Portugal, a dizer das apreciações da Embaixada dos EUA em Lisboa, que em telegrama para o seu Governo refere a vantagem de o “acarinhar muito” (assim confirmando o seu conhecido alinhamento político com o “amigo americano” desde há muito) e reconhece que a actuação deste ministro, no caso do trânsito por Portugal de voos da CIA com detidos de Guantanamo «reflecte a pressão contínua política e dos media relativamente a este assunto» e «tornam os esforços de assistência do Governo de Portugal (GOP) à repatriação de detidos de Guantanamo ainda mais difíceis», ou seja, fala na conivência publicamente negada do Governo português para a passagem de voos da CIA com detidos por território nacional (a tradução parcial sublinhada do telegrama é publicada pelo insuspeito sítio web da Agência de Negócios, onde se pode ter acesso ao telegrama original e a mais informação)?

Wikileaks: se não existisse, não era a mesma coisa!

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É cada vez maior o número dos que estão fartos de levar em cima com a ocupação do espaço público e mediático pelos “bonzos” bem pagos do pensamento único da economia. Os mesmos que (quase) sempre se enganaram, mas nunca têm dúvidas quanto à orientação de apertar o cinto dos “de baixo” e de preservar os privilégios dos “de cima”, em nome da acalmia e estabilidade dessa entidade mitificada que são “os mercados”, a nova religião que nos querem impingir.

São os novos “Dupond et Dupont”, os guardiões do templo do pensamento neoclássico e neoliberal na economia das universidades, às vezes com umas pitadas (cada vez mais ténues e esquecidas) de keynesianismo à mistura. Com passagem por sucessivos governos e administrações de bancos e grupos económicos, frequentemente acumulando escandalosas reformas, e que o poder económico e político usa e compra, quer para explicar as medidas anti-sociais, quer para preparar o terreno para os assaltos seguintes à carteira dos cidadãos comuns.

Sucessivas gerações´de economistas formados neste ambiente académico e mediático ajudam a explicar a tibieza do protesto e da revolta contra a monotonia do discurso neoliberal e o conformismo e passividade relativamente à sua tese máxima de que “não há alternativa”. Tese proclamada pela nada saudosa Thatcher ( lembram-se do acrónimo TINA – “There is no alternative” ?) que, com Reagan, protagonizaram e impulsionaram no plano das políticas  o neoliberalismo como doutrina da globalização capitalista e do reforço mundial do poder, da concentração e dos recursos do grande capital, depois dos “30 gloriosos” do pós-guerra em que este se vira constrangido aos compromissos do Estado Social entre capital e trabalho nas sociedades demoliberais. 

Felizmente que está a surgir um número cada vez maior de vozes lúcidas na Economia (neomarxistas, keynesianos, institucionalistas,…) que, nas universidades e fora delas, provam que há mais mundo, mais ideias, mais ãlternativas e caminhos além dos proclamados pelos sacerdotes do TINA. E uma nova geração aí está a provar que nesta área não se vergam nem acomodam ao situacionismo dominante (é ver, como exemplo, o blogue Ladrões de Bicicletas). É mais que tempo de terem também voz no espaço público e mediático!

Merece por isso todo o apoio a petição on-line pelo pluralismo de opinião no debate político-económico que acaba de ser lançada exigindo que se acabe com esta vergonhosa e ostensiva imposição de um pensamento único nos média, afinal nada compatível na teoria com as credenciais liberais que os seus propagandistas de serviço gostam de ostentar, de modo a que todos os cidadãos tenham acesso à diversidade de análises e opções existentes.

Neste tempo em que nos mergulharam numa espiral suicidária e recessiva de PECs, temos direito e é preciso um debate plural e verdadeiramente contraditório que não nos limite às receitas do costume. Assinem aqui a petição e passem a palavra!

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O Presidente do PSD não resistiu e antes de dar a conhecer a proposta de revisão constitucional à Comissão Política, ao Grupo Parlamentar do PSD e à própria Assembleia da República, preferiu apresentá-la primeiro aos jornalistas. Para isso, convidou a imprensa para um pequeno-almoço, onde tentou explicar a proposta, desmistificar os “papões”, utilizando as suas palavras, “desintoxicar” a opinião pública e, no fundo, seduzir os jornalistas. Curiosamente, Passos não convidou os jornalistas que habitualmente acompanham o PSD, que era o que faria sentido. Convidou os directores dos órgãos de comunicação social.

Revela duas perversidades: a primeira, uma profunda falta de respeito institucional pelos órgãos do partido e pelo próprio órgão de soberania que é o Parlamento (e os deputados eleitos); a segunda, uma curiosa interpretação do poder vertical exercido nas redacções.

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