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Archive for the ‘Sociedade’ Category

Neste Dia Internacional das Pessoas com Deficiência partilho convosco o meu pequeno contributo para acabar com o preconceito. “Vermelho da Cor do Céu” foi uma das Grandes Reportagens que mais gostei de fazer (com o grande sonoplasta Luís Borges Cândido!). E foi seguramente das que mais me marcou. Ouçam. Com os olhos fechados e com a luz apagada.

Vermelho da Cor do Céu – TSF.

Como é o mundo de quem nunca viu?A Reportagem TSF coloca a venda nos olhos, segura a bengala e entra no mundo de quem não vê com os olhos. Mercedes gostava de saber como são as pessoas, como são os seus rostos. Tiago queria ver com olhos um cavalo a correr, porque parado já o viu com as mãos. Alcides não sabe de que cor são os seus olhos porque é como se não existissem. Susana e Rodrigo, casados sem nunca se terem visto, nunca acendem as luzes na casa onde vivem. Ângelo vê com os dedos obras de Picasso e imagina as formas e um mundo que nem Picasso imaginou. Para uns o Sol é azul, da cor do céu. Para outros, as estrelas são candeeiros pendurados no tecto do céu. Para outros ainda, o céu é vermelho ou azul ou sem qualquer cor.«Vermelho da Cor do Céu» é uma grande reportagem de Ana Catarina Santos, com sonoplastia de Luís Borges.

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Aos ditadores

Cospem verbos. Vomitam palavras que nem conhecem. Espumam insultos. Salivam raivas. Chutam ódios. Batem. Agridem. Ácido. Fecho os olhos. Tapo os ouvidos. Sai, sai, sai daqui! Saiam! Saiam todos. Caras feias. Olhos raiados de podridão. Parasitas. Ocos. Veias eriçadas que querem sair daqueles corpos moribundos. Maldade. Inveja. Poder nojento. Poderzinho autoritário. Sangue podre. Nojo. Ferrugem nas artérias. Mofo. Bolor. Rugas de maldade. Mau hálito. Bafo de tédio. Infelizes. Cadáveres de gente. Almas tristes. Insignificantes. Complexados. Pequeninos. Mentecaptos. Vazios. Mentirosos. Falsos. Desapareçam. Evaporem-se. Vão brincar aos poderzinhos para o crematório. Desapareçam, ditadores! Morram, morram todos. Matem-se uns aos outros. Pestilentos. Morram, velhacos. Gritaria. Párem! Caiam. Acéfalos. Medíocres. Estúpidos. O mundo não vos merece. Adeus.

 

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Sexta-feira, 8 de Junho. Sessão das 21.40 numa sala de cinema Castello Lopes do Rio Sul Shopping, no Seixal. A temperatura sobe, o ambiente está pesado. A concentração no enredo do filme distrai porém a atenção do desconforto. Chega o intervalo e todos os sentidos despertam. Está anormalmente quente. O ar é viciado. Subo as escadas rolantes para ir ao balcão que acumula a venda de pipocas e bebidas com a função de bilheteira (viva a polivalência!). Protesto. Confirmam-me que o ar condicionado está desligado. Reclamo. Volto para baixo. Continua na mesma. Subo de novo. Peço o livro e registo a reclamação. Prometem que vão ligar o ar condicionado. Assim aconteceu. Finalmente.

Em conclusão: estavam dezenas de pessoas apenas nesta sala de cinema. Nas outras salas certamente aconteceu o mesmo. Mais ninguém reclamou ou protestou por este atentado à saúde pública.

A moral principal desta estória: percebe-se por que razão Coelho e Gaspar elogiam a paciência dos portugueses que sofrem doses cavalares de austeridade. E por que até agradecem, como bons capatazes, a bondade dos credores. Enquanto nos continuam a impingir a treta de que há que baixar as calças e ser bem comportados. Sim, que nós não somos como aqueles malandros dos gregos. Confundem paciência com medo. É por isso que a curva do protesto social é descendente nos últimos dois anos, enquanto a crise, a pobreza, o desemprego e a desigualdade se agravam. Alguns poucos ganham. Muitos perdem. Brandos costumes, até quando?

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Vê-se, ouve-se e nem queremos acreditar. Mas é verdade. Uma série de artistas habitualmente conhecidos por associarem à qualidade cultural do seu desempenho um posicionamento social crítico e solidário, participam na canção que funciona como hino da campanha “Zero Desperdício” (ouvir aqui a canção, para informação completa).

Claro que somos contra o desperdício e pelo pleno aproveitamento dos recursos e dos bens. Mas não percebemos como é que se aceita que  a distribuição das sobras seja o eixo central de uma poderosa campanha global que pretende mobilizar os cidadãos para o apoio aos mais pobres, desfavorecidos e desprotegidos nesta crise.

Claro que somos pela partilha e pela solidariedade. Mas não a confundimos com o elogio da entrega das migalhas que sobram da mesa farta de alguns.

Claro que não questionamos a boa e recta intenção de muitos participantes nesta campanha, nem o seu direito cidadão de lhe darem voz e rosto. Mas, como é sabido, o inferno também se alimenta de boas intenções e de bem intencionados.

Que este presidente da república com que temos que viver tenha dado o seu patrocínio a esta campanha, percebe-se. Está na sua reconhecida natureza de propagandista da caridade e do assistencialismo.

Que artistas estimáveis tenham alinhado, atraídos pelo combate ao desperdício, numa operação que constitui uma variante sofisticada do que José Barata Moura há umas décadas atrás já denunciava na sua certeira canção Vamos brincar à caridadezinha, só se percebe por ainda vingar na sociedade portuguesa o conformismo  e a resignação perante a estratégia do medo, da culpa e da punição conduzida por governantes fundamentalistas e autoritários. Estratégia que está a tolher a lucidez de alguns quanto às causas das coisas e quanto ao que é preciso fazer. E a empurrar a má consciência de outros para escapes e saídas fáceis e auto-consoladoras de mitigação de problemas sociais difíceis. Que exigem outro rumo. Outros governantes. E o crescimento amplo e profundo da indignação social contra este estado de coisas e contra os seus responsáveis. Os tais que patrocinam e apoiam discretamente esta conveniente campanha, enquanto prosseguem o seu plano de empobrecimento duradouro do país (leia-se: da maioria).

Nada mais oportuno para os mandantes do que esta promoção de “desportistas da caridade” que José Barata Moura também já denunciava, assim ocupados na distribuição das sobras como panaceia universal para enfrentar os problemas da fome, da privação e da chocante desigualdade social que é causa primeira da pobreza.

Mas fica também a esperança e a convicção de que muitos dos que nela agora colaboram também estarão connosco hoje e amanhã noutros combates mais decisivos por um futuro colectivo mais decente e democrático, que não seja baseado na distribuição dos restos e das migalhas sob o eufemismo de “combate ao desperdício”. Entretanto, para que conste, aqui fica a canção de José Barata Moura.

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Comer e Calar?

As recentes declarações do Cardeal Patriarca de Lisboa (ver aqui) exprimem o crescente alinhamento do discurso oficial e da prática da Igreja Católica em Portugal pelos interesses do bloco político-económico central dos grandes interesses, que a tem discriminado positivamente, financiado, protegido e beneficiado na governação. Os arrufos pontuais em matérias de valores e de costumes, onde o conservadorismo e fundamentalismo religiosos se têm necessariamente que chocar com a (condicionada e limitada) laicidade do Estado, não conseguem seguer esconder a evidente convergência de interesses.

Não surpreendem então as palavras do Cardeal Patriarca quando declarou não gostar do posicionamento dos “grupos de classes”, entre os quais os sindicatos, e que não gostava “que os grupos estejam a fazer reivindicações grupais, de classe”. Reivindicando para si a duvidosa e improvável legitimidade de intérprete do interesse geral e querendo, em nome disso, convencer os trabalhadores a abdicar  da única arma que possuem contra as injustiças – a sua organização e acção colectivas.Como se uma democracia política saudável não envolvesse a gestão e o reconhecimento do conflito entre interesses socialmente organizados.

Não queremos ofender as convicções mais ou menos liberais do Cardeal Policarpo. Todavia o seu ataque aos sindicatos, tão alinhadinho com o discurso de Passos Coelho e depois de já ter publicamente recomendado aos portugueses que comessem e calassem o programa da troika, recorda-nos irresistivelmente a “democracia orgânica” do corporativismo autoritário de má memória em que vivemos durante quase cinquenta anos com a benção do defunto Cardeal Cerejeira. Se não é saudosismo, pelo menos é um discurso legitimador do unanimismo autoritário proclamado pelo poder, assim ungido pelo poder religioso, visando castrar a oposição social e política, sem a qual não há construção de alternativas. E sem debate de alternativas, morre a democracia política.

A Igreja institucional em Portugal tem-se vindo a afastar cada vez mais de uma intervenção socialmente comprometida que obrigue a tomar partido, em favor de uma lógica assistencialista e caritativa que encaixa bem com a relação privilegiada (e mutuamente vantajosa) com um poder político e económico apostado no desmantelamento do Estado Social e na apropriação privada dos bens e serviços públicos. A orientação conservadora e mais distante das temáticas sociais do actual Papa não é certamente alheia ao facto.

A caminhada para o desmantelamento do Estado Social e a sua substituição por um regime assistencialista que traz à (má) memória a Poor Law britânica do século XIX, com a cobertura de um discurso piedoso dirigido aos pobrezinhos, encaixam perfeitamente com o proteccionismo fiscal e com a transferência largamente financiada e subsidiada das responsabilidades sociais do Estado para as IPSS e Misericórdias controladas pela Igreja, e que não são objecto de qualquer fiscalização digna desse nome quanto à gestão e realização das suas funções sociais financiadas pelo Estado.

Ora os favores e os apoios pagam-se. Um poder político tão benevolente, parcial e proteccionista em relação à Igreja-instituição, à Igreja-poder, suscita hoje o carinho dos que comandam a Igreja, e que escolheram ser mais importante a boa relação com os poderosos da política e da economia do que alinhar com os “de baixo”, a imensa maioria cidadã que sobrevive no desemprego, nos baixos salários e pensões, nos altos impostos, no trabalho precário e na incerteza do futuro, na exigência comum da redução das desigualdades e na melhor repartição da riqueza.

A crescente desatenção desta Igreja institucional quanto ao mundo do trabalho, com a desvalorização das suas organizações históricas da Acção Católica Operária, com o desaparecimento do seu activismo e reflexão organizados nesta área, ou no mínimo com o seu confinamento a sectores residuais, são um exemplo expressivo das escolhas feitas pelos principais responsáveis desta instituição. Contrastam com um passado de militantismo operário e sindical de muitos activistas praticantes de um catolicismo social interventivo e transformador. Os quais tiveram um papel marcante na configuração do movimento sindical português, como antes nos combates contra a ditadura do fascismo.

Claro que persistem nos meios católicos activismos e testemunhos de quem rema contra esta maré neoliberal que também atinge, recupera e neutraliza esta Igreja cada vez mais conformada e conformista. Como são as actividades da Comissão Nacional Justiça e Paz. Ou as intervenções dos bispos Januário Torgal ou Manuel Martins. São todavia uma minoria.

A Igreja dos ricos está a submeter a Igreja dos pobres. Assim é submetida em Portugal a Igreja dos pobres e do mundo do trabalho à Igreja-Instituição alinhada, no essencial, com os poderosos. O que ainda mais desequilibra, no imediato, a balança dos poderes para o lado dos que querem aproveitar a maré da crise para uma mais profunda,mais desigual e mais duradoura redistribuição deos recursos em favor dos que mais têm, mas que acham que não são ricos, no país mais desigual da Europa (juntamente com duas pequenas repúblicas bálticas que nos acompanham nesta vergonha).

Porém esta tentação carnal a que sucumbe o Cardeal Policarpo e a Igreja institucional que representa, esquecendo o amargo preço que já pagou no passado pela sua identificação com um regime de má memória a troco de benefícios de curto prazo, tem o reverso da medalha: é a sua perda de raízes e influência nos meios populares e no mundo do trabalho, afinal o que deveria ser a suposta razão primeira da sua existência, se levarmos a sério esse belo poema que é o Sermão da Montanha. E convém não esquecer as palavras sábias do Padre António Vieira que, no seu “Sermão do Bom Ladrão”, proclamava “o que vemos praticar em todos os reinos do mundo é, em vez de os reis levaram consigo os ladrões ao paraíso, os ladrões são os que levam consigo os reis ao
inferno.” Aviso que tem evidente ressonância contemporânea no assalto a que está submetida a maioria para proveito da finança especulativa e usurária.

Pelos vistos, vozes dos ricos chegam aos céus. Mas convenhamos que o apoio das “tias de Cascais” e dos poderosos aos seus apelos para que os explorados comam e calem não assegura grande futuro a esta Igreja.

Pelo menos um resultado positivo conseguiu entretanto o Cardeal Policarpo com a sua intervenção: unir as confederações sindicais – a CGTP e a UGT – na comum condenação pública das suas palavras. É obra, quando estas têm conseguido estar ultimamente desavindas em quase tudo, apesar da gravidade da crise social justificar uma reforçada convergência de acção.

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Jane Fonda, em entrevista publicada na última Visão, respondendo à pergunta “O que gostaria o seu eu mais velho dee dizer ao mais novo?”, comentou que “Também isto passará. É mais importante estar interessado do que ser interessante“. Mostrou a sabedoria e a energia criativa dos  73 anos bem vividos de uma grande actriz e de uma cidadã empenhada,  feminista, liberal (no sentido norte-americano do termo, ou seja, posicionada à esquerda), activa opositora da agressão norte-americana ao Vietname e ao Iraque, animadora de práticas saudáveis de vida.

Numa frase assim, ela resumiu um programa de vida e uma escolha decisiva com que cada um de nós é confrontado na contingência e finitude da nossa condição de humanos: cuidando de ser interessantes voltados para o umbigo e o espelho, ou interessarmo-nos pela vida, pelos outros, pelo mundo e, nessa relação deixar a nossa pequena semente de futuro. Obrigado, Jane Fonda, pelo mote.

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A interessante fórmula proposta por Miguel Cadilhe na sua entrevista ao Jornal de Negócios (ver aqui)para um imposto especial sobre as grandes fortunas mostra como uma parte das elites ligadas ao grande capital, quando pressentem o risco da explosão do descontentamento social dos “de baixo” sujeitos à pressão infame de uma desigualdade cada vez maior, até aguçam o engenho e a arte para prevenir esse risco. Por isso, as palavras de Warren Buffett também por cá encontraram algum eco, embora medíocre, à medida da pequenez e ganância do capital lusitano, de que Américo Amorim é uma expressão maior, o tal que, sendo o mais rico de Portugal, logo declarou que “não é rico”, apenas “trabalhador”.

A proposta de Miguel Cadilhe – arrecadar com o imposto especial sobre as grandes fortunas o equivalente a dois anos de colecta da totalidade do IRS, que poderiam ir directamente para o abate da dívida pública -, e também a proposta que o BE hoje novamente apresenta na Assembleia da República (mais recuada e moderada do que aquela), têm o mérito de colocar a questão no ponto certo: não basta taxar os altos rendimentos em sede de IRS (o que já é feito, com resultados limitados, através de uma taxa de 46,5% sobre os rendimentos mais elevados); é preciso ir ao património mobiliário (acções, obrigações, ouro, etc.) e imobiliário dos muito ricos e aplicar-lhes uma taxação especial. Em nome de uma maior equidade fiscal. O que, se não repõe a justiça na profundamente desigual distribuição da riqueza em Portugal, pelo menos condicionaria a margem de manobra deste Governo ultraliberal para usar de forma desmesurada a pressão dos impostos e do corte de direitos sobre os suspeitos do costume (trabalhadores, reformados, desempregados).

A conveniente recordação por alguma imprensa da defesa pelo Presidente da República de uma taxação especial sobre os altos rendimentos não deve servir para reconhecer de repente algum Robin dos Bosques na Presidência. Significa antes a instrução clara ao Governo, por parte do seu patrono, de que esta onda não deve servir para atingir o património dos poderosos, mas apenas para medidas de “faz de conta”. Ou, dito de outro modo, e lembrando a frase batida do Príncipe de Salina no “Leopardo”, de Lampedusa, a receita de Cavaco e de outros comentadores de serviço ao poder, é que é preciso que algo mude para que tudo fique na mesma. De facto, Cavaco Silva opõe-se a qualquer tributação especial sobre os grandes patrimónios ou fortunas, mobiliários ou imobiliários, porque sabe muito bem que é aqui que se podem ir buscar recursos para mitigar a carga fiscal e social desproporcionada sobre os rendimentos do trabalho e sobre as pensões. Para este representante da elite política conservadora, o capital é sagrado. E o capital já redistribui voluntariamente os seus restos e migalhas através das obras de caridade que ele tanto tem enaltecido como alternativa a um Estado Social que é preciso desmantelar, não é?

Um argumento já vindo à liça pelos comentadores de serviço, cavaleiros andantes bem pagos sempre prontos a pregar a austeridade para os do costume, é a treta de que um imposto especial sobre as grandes fortunas impulsionaria uma fuga gigante de capitais e a falência dos bancos. É sempre a mesma melodia, seja nas medidas austeritárias da troika e “mais além” (lembrando a orientação ultraliberal do Governo), seja na protecção do grande capital: o que é preciso é acalmar os mercados, as pessoas vêm depois… E o resultado é sempre o mesmo. Os capitais continuam a voar para os paraísos fiscais (vejam-se as estatísticas), o desemprego continua a subir, a recessão a crescer, e as grandes fortunas a crescer (veja-se o insuspeito estudo da Exame, que revela que as 25 maiores fortunas nacionais representam mais de 10% do PIB e aumentaram o seu património quase em 20% num ano e em plena crise).

Os que assim pregam, não explicam porém porque é que os grandes grupos económicos e os bancos portugueses já têm boa parte dos seus activos e dos seus lucros controlados por sociedades sediadas em paraísos fiscais e noutros países europeus, para fugirem ao pagamento de impostos no seu país (como sucede com o “trabalhador” não rico Américo Amorim…). Nem porque é que sistematicamente o PS e os partidos da direita recusaram sempre as propostas à esquerda, do PCP e do BE, para ser controlada e taxada a transferência de capitais para os paraísos fiscais, o que seria possível e viável.

Neste debate, que agora recomeçou, importa ver as cenas do próximo capítulo. Por exemplo, como é que o PS se vai comportar nesta matéria. Se como oposição “construtiva” – leia-se, bem comportado e cúmplice nos compromissos com a troika e com o programa austeritário de recessão e agravamento da pobreza e das desigualdades, embora temperado com alguma proclamada “consciência social” – ou colocando-se claramente do lado da esquerda e dos que combatem por alternativas a esta ordem económica e social injusta.

Cabe aos trabalhadores, às esquerdas, ao movimento social, não permitir que este debate sobre a responsabilização e partilha pelos muito ricos do pagamento da crise seja apenas, como pretendem as elites político-económicas beneficiárias da crise, uma operação cosmética para enganar o pagode e anestesiar o temido protesto social dos humilhados e ofendidos. O que implica propostas e pressão social efectiva para que haja medidas reais e visíveis, no seu valor e nas suas consequências, que provoquem progressos na repartição social da riqueza e dos sacrifícios. E afinal, como questiona o insuspeito de simpatias radicais de esquerda Miguel Cadilhe, “Pagar uma taxa de 3 ou 4% sobre um grande património líquido será muito aflitivo?”

Se tal não suceder, destas “manobras de Agosto” apenas resultaria uma ópera bufa ou um jogo de espelhos montado pelos poderosos para distracção dos incautos e anestesia dos que estão cada vez mais absorvidos pela sobrevivência quotidiana. Do que os poderosos têm medo, muito medo, é que a corda social, de tão esticada pela ganância extrema do capital sem freio e da economia de casino dos mercados, se parta mesmo e que “os brandos costumes” dos portugueses que tanto acarinham se revelem afinal uma ficção.

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