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Archive for the ‘Uncategorized’ Category

A Mimi

Vi-a no Verão passado. Estava queimadinha da praia, vestido leve e floral, sandálias baixas, pés tratados, cheia de colares e pulseiras coloridas. Tinha um ar saudável e feliz.

Cruzámo-nos na rua e rasgou um sorriso gigante, muito branco, olhos muito brilhantes e um sonoro “olá, há tanto tempo!”

A Mimi era mais velha que eu uns anos. Nunca estudámos juntas, ela era da Comercial, eu do Liceu. Na verdade nem sei bem como ou quando nos conhecemos. Teremos estado juntas em algum jantar de amigos comuns, em alguma festa.

Nunca conversámos sobre a nossa vida, falávamos sempre de passagem, dizíamos sempre um “olá” sorridente, seguido de um “tudo bem?”. A Mimi tinha sempre um mimo: “estás tão linda” ou “cada vez mais bonita” ou “vi-te na televisão!”. A Mimi estava sempre sorridente e era sempre simpática.

Na última vez que nos cruzámos acenou e soltou palavras doces no meio do sorriso rasgado:“um dia destes temos que tomar um café!”

Não tomámos. Nem vamos tomar.

A Mimi foi assassinada ontem pelo homem com quem vivia. O sorriso feliz da Mimi escondia cicatrizes, agressões, maus tratos e violência. A violência doméstica é crime. A Mimi procurou ajuda, procurou fugir da morte. Já tinha feito queixas. Já tinha procurado ajuda. Voltou para casa. Voltava sempre para casa, sabendo o que a esperava todos os dias. Mas na rua sorria para os outros. Tal como sorria para mim. E tinha sempre um mimo para oferecer. E tinha sempre um sorriso bonito.

A Mimi ligou à Polícia horas antes de morrer. Queixou-se da agressão. O homem com quem vivia ia matá-la, como ameaçava todos os dias. A Polícia não apareceu logo. O caso estava sinalizado. As instituições catalogaram o caso da Mimi como sendo de “baixo risco”. A Mimi foi morta. Assassinada com uma faca de cozinha na casa onde sabia que ia ser morta um dia. Na casa onde sempre voltava ao fim do dia depois de espalhar sorrisos e mimos aos que a conheciam. A Mimi voltava a casa, o seu inferno diário, onde se ia deitar com o homem que a ia matar.

Ser Mulher não é isto. Ser Homem também não.

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Tenho a cabeça num nó. Não consigo dormir. Excesso de informação. Trabalhar na área política e na justiça tem destas coisas. Há informação que me provoca asco. It’s politics, stupid!

48 horas de conversas meio secretas, outras nem tanto, de telefonemas esquisitos e mensagens estranhas, de documentos falsos ou verdadeiros, de manipulações e jogo perigoso, de sedutores labirintos e rebuscadas teorias da conspiração.

Não sei se o mundo gira ao contrário ou se estão à solta os loucos conspiradores de Lisboa. Não sei se o bas-fond decidiu atacar tudo e todos ao mesmo tempo. Talvez sejam apenas os meus neurónios a pedirem um descanso em off-shore.

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Tenho de fazer uma confissão. Sou uma dependente da informação. Não sei se isto se cura, já tentei várias terapias mas sinto que de ano para ano os sintomas se vão agravando. Talvez precise de ajuda especializada… 

Ora vejamos. Se houvesse uma especialidade médica, um Senhor Doutor, que curasse dependentes de notícias e de informação, começaria por revelar-lhe alguns sintomas. 

– Olhe, Sôtor, eu não sei se isto vai ser fácil, mas há indícios que eu penso que o Sôtor tem mesmo de saber. Eu, pelo menos, acho que isto não é normal. 

– Então diga lá. O que é que sente? 

– Olhe, um dia destes, em plena auto-estrada do Sul, parei à meia-noite e meia numa estação de serviço para tomar um café, e tive de pedir ao funcionário para aumentar o volume do televisor porque estavam a analisar uma decisão do Tribunal Constitucional. Resta dizer, Sôtor, que eu estava em pleno período de férias. Bem sei que, tendo-me apercebido que se tratava de um debate na Sic Notícias, devia ter virado a cara e evitado continuar exposta à informação. Mas não consegui… 

– Humm… Isso é grave. E que mais sintomas manifesta?

– Ontem uns amigos contavam uma anedota enquanto almoçávamos. Acredita que assim que falaram em “Sócrates”, perguntei se se referiam ao antigo Primeiro-Ministro? Devo estar doente. Olharam para mim como se eu fosse um extraterrestre. Claro que não, estavam a falar de filósofos. 

– Humm… Pois, isso também não é bom. Está a afunilar referências… 

– Sinto-me mal, sabe? Quando estou com pessoas que não são jornalistas ou estão fora do meio político, não posso dizer as mesmas piadas, compreende? Não posso fazer trocadilhos sobre o Seguro e o Costa. Não posso dizer simplesmente a palavra “Passos”, perguntam logo: “qual Passos? O do Café?” Não posso falar simplesmente de Belém sem que pensem que estou a falar dos Pastéis ou do Belenenses. Compreende? Isto é uma enorme angústia… 

– Mas vê e lê tudo?!  

– Quase tudo, sim. Ouço noticiários, leio jornais. Até imprensa internacional, imagine…

– E que mais? Perdeu o apetite? 

– Bem, isso não Sôtor. Também não exagere. Para comer e beber ainda estou bem. 

– Mas consegue alimentar-se sem estar acompanhada por notícias? 

[Silêncio]

– Hummm… Pois… O seu caso é sério… 

– O que devo fazer, Sôtor? 

– Bem, vou prescrever-lhe aqui uns comprimidos anti-notícias. Tem de tomar todos os dias pelo menos uma vez por dia até ao fim das suas férias. Todos os dias sem falhar.

– Muito bem. Obrigada Sôtor. Vou fazer isso, sim. E acha que devo tomá-los antes ou depois de ver o Telejornal? Ou é preferível logo de manhã, ao pequeno-almoço, durante a leitura dos jornais?

 

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O darwinismo social está mais vivo do que nunca. Ou és o melhor ou morres. Sendo que o conceito de “o melhor” é altamente subjectivo. Podes ser o melhor a engraxar o chefe e assim serás verdadeiramente “o melhor”. Se fores o melhor a trabalhar e incomodares o chefe, serás “o pior” – o verme a extinguir, o cancro que prejudica a evolução dos melhores.

Os melhores são os mais capazes. E, nestes novos tempos de darwinismo social, os melhores sobrevivem sempre. Saem sempre bem. Por cima. Em cima dos outros.

Os darwinistas sociais estão a liderar as organizações. Mas nunca ouviram sequer falar em Darwin. Ou terão ouvido vagamente. Porque nunca o estudaram, nem percebem o alcance. Porque nunca leram história, nem história social, nem sociologia, nem história económica, nem política social, nem políticas públicas, nem antropologia cultural, nem filosofia, nem psicologia social, nem sociologia urbana, nem demografia, nem ecologia, nem história das ideias políticas, nem direito, nem direito constitucional, nem direitos humanos, nem quaisquer outras ciências sociais. Porque isso não é ensinado nos MBA’s (os que os têm, os que os compraram).

Os darwinistas sociais que estão a liderar as organizações e a sociedade não têm a noção de que a luta pela sobrevivência individualista vai matar a própria sociedade. Não sabem porque não páram para pensar no que estão a fazer. Não sabem que por detrás da competição individualista estão tiques de autoritarismo e de deriva anti-social, que podem culminar numa luta extrema pela sobrevivência. No limite, há-de matá-los também.

Os darwinistas sociais não querem pensar nas consequências dos seus actos. Pensar fá-los perder tempo. Não querem perder tempo no que pode estar para vir. Porque acham que os fracos nunca vão ter força para os derrubar. Os fracos, mesmo muitos, não constituem ameaça. Porque dos fracos, pensam eles, não reza a história. Mas os fracos são cada vez mais. E eles não sabem disso, porque não páram para pensar.

Os darwinistas sociais fazem o seu trabalho. Limpinho. O das saídas limpas ou o das negociações sujas. O que interessa é fazer o que tem que ser feito. Com dor, reconhecem falsamente combalidos, mas é o que tem que ser feito. Não se incomodam com os que ficam pelo caminho. Mesmo sendo pessoas. Porque os que ficam pelo caminho são os fracos.

A sociedade não quer saber dos fracos. Os darwinistas sociais estão de consciência tranquila. Fizeram o que tinha de ser feito. Fazem o que tem de ser feito. Se a natureza não elimina os fracos por si só, nós os fortes fazemos o que tem de ser feito. Seus fracos, orientem-se. Façam-se à vida. Morram. Longe.

 

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A pessoa sozinha

Era uma pessoa sozinha. Pelo menos, estava sozinha esta noite. Atravessou, muito devagar, a estrada até meio. Parou no separador central junto a uns arbustos da sua altura. 

Reparei nela quando espreitei a rua da minha janela, já perto da meia-noite. Estava frio e estava a chover. A pessoa sozinha ficou parada no pedaço de terreno que separa os dois sentidos da estrada. A pessoa não se mexia. Pensei que estivesse simplesmente à espera que os carros a deixassem atravessar a outra metade da estrada que lhe faltava. Mas não havia carros, nem para um lado nem para outro. E a pessoa ali estava, parada. Sozinha. De pé, a meio da estrada. Junto ao separador. Como um arbusto de pé. Com raízes na lama fria. 

Vestia um casaco escuro, talvez negro, com um capucho que lhe tapava a testa e quase os olhos. Usava umas calças escuras e trazia calçados uns sapatos também escuros, talvez botas. O seu corpo encharcado, na noite escura, confundia-se com os arbustos molhados. Nenhum carro passou. A pessoa sozinha não atravessava porque não queria. Ali ficou uns minutos, não sei bem quantos.  

Não consegui afastar-me da janela. Os vidros embaciavam com as minhas interrogações: quem é esta pessoa, por que está sozinha, por que está à chuva, por que não atravessa, por que não se abriga, por que não corre para o telheiro, o que espera, o que pensa, que lhe ocorre, o que lhe passou, quem é, que vida tem, o que precisa, quererá estar sozinha… 

Os arbustos eram a sua única companhia. Até a chuva parecia estar espantada… Amaciou ligeiramente. 

As luzes amarelas de dois faróis. Passou um carro devagar. Não viu a pessoa sozinha, nem sequer abrandou. Talvez a tivesse salpicado mais ainda. Limpei o vidro embaciado da janela, pois não conseguia ver com nitidez. Pareceu-me ver algum movimento junto aos arbustos. Sim, a pessoa sozinha moveu-se um pouco. Deu um passo. E outro. Aproximou-se da estrada. Ajeitou o capucho com a mão direita, olhou para o fundo da estrada, confirmou que não vinha ninguém e atravessou. A pessoa quase não andava. Arrastava os pés. Devagar, devagar, devagar. À chuva, de cabeça em baixo.  

A pessoa sozinha trazia um saco de plástico enrolado na mão esquerda. Devia ter alguma coisa lá dentro, documentos, a carteira talvez. Não sei. O saco cobria algo que era pouco maior que a sua mão. Deslocou-se lentamente, encharcada, à chuva até pisar o passeio no lado de cá. Estava a uns trinta metros da minha janela. Num impulso abri a janela e pensei gritar-lhe para perguntar se precisava de ajuda. A pessoa sozinha seguia de cabeça baixa.  

Com a janela aberta o silêncio fresco da noite entrou-me em casa. E com a chuva sustida, reprimida de espanto, ouvi a pessoa sozinha a chorar. Mas era um choro sem igual. Um chorar violento, um gemido que era uma lâmina, uma dor vulcânica, lágrimas de lava, um chorar ardente de alma toda. Não há choro maior que o choro de alma toda. A pessoa sozinha desabava à chuva. Desmoronava-se.

Há dores que não cabem no peito de uma pessoa sozinha.

 

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– Laranja em turco diz-se “Portakala”. Quando dizemos que vimos de Portugal, temos de pronunciar bem a palavra ou entendem que somos naturais de “laranja”.

– Chá em turco diz-se “Çay”. Lê-se tchai, parecido com o som em português.

– A borra do café turco que fica na chávena, depois de tomado o café, serve para os turcos lerem a sina. Viram a chávena de cabeça para baixo e a borra que ficar no pires é lida como quem lê a palma da mão.

– Os turcos acreditam que se não fossem eles não haveria o hábito de beber café no Ocidente, uma vez que dizem que foram eles que introduziram o café na Europa.

– O pistacho quase podia ser o alimento nacional. Tudo tem pistachos! Os pistachos são servidos sempre sem sal e acompanham quase sempre as reuniões de trabalho. Imensos alimentos têm recheio de pistacho, carne com pistacho, puré de pistacho, peixe do Mar Negro com pistacho, sobremesas de pistacho, chocolate de pistacho, etc.

– Em Istambul há eléctricos como em Lisboa, mas em vez de serem amarelos são vermelhos. Hoje em dia são praticamente apenas turísticos e é fácil encontrá-los na Praça Taksim. 

 

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– O alfabeto turco não é árabe. É uma variante do alfabeto latino. Tem 29 letras, das quais 8 são consoantes, mas não existem as letras Q, W e X.

– Os turcos adoram flores. Por todo o lado se compram e vendem flores. A Turquia é um dos maiores produtores de flores. Além da quantidade há muita variedade: dizem ter mais de 9 mil espécies de flores diferentes. Até vi rosas verdes à venda na Praça Taksim!

– Os turcos são fanáticos por futebol e adoram desportos de uma maneira geral.

– Istambul é a única cidade do mundo dividida em dois continentes – uma parte na Europa e outra parte na Ásia – apenas separadas pelo Bósforo.

– São Nicolau (St. Nicholas – o “Pai Natal”) nasceu no Sul da Turquia.

– Ataturk é venerado e adorado em todo o País. Por todo o lado há imagens (santinhos) do “pai fundador” da Turquia, num culto da personalidade excessivo.

– Em Istambul vendem-se na rua deliciosas maçarocas de milho assado na brasa por menos de um euro (2 Liras Turcas).

 

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– O trânsito é caótico. Há quem faça marcha-atrás ou inversão do sentido de marcha em plena auto-estrada, apenas para tentar fugir ao trânsito.

– Os turcos têm por hábito mastigar “cravinho” (especiaria) depois das refeições. Dizem que serve para melhorar o processo digestivo e para promover a higiene oral. Não é raro os turcos oferecerem “cravinhos” aos seus convidados no final das refeições.

– A capital é Ankara mas Istambul é a maior cidade, onde vivem cerca de 15 milhões de pessoas.

 

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– A média de idade na Turquia é de 31 anos.

– A origem da palavra “Turquia” é “Türk”, que significa “forte”.

– O lema nacional da Turquia é “Paz em casa, Paz no Mundo”.

– Na Turquia ninguém deve beijar-se em público. Os namorados, noivos, casais, não devem beijar-se na boca nas ruas. Antigamente era proibido por lei. Hoje já não é assim mas ainda há quem censure esse comportamento. Em Istambul essa “regra” é mais flexível. E não é aplicável aos turistas.

 

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A violência doméstica é sempre, em qualquer circunstância, um acto repugnante. Seja entre quem for, seja contra quem for. Os doutoramentos em filosofia não trazem por si só qualidades aos homens.

 

A discussão na redacção era se devíamos dar a notícia.

 

– A confirmar-se, e depois de ouvidas as partes envolvidas, claro que sim! – diziam uns.

– Isso são notícias para a imprensa cor-de-rosa! – contestavam outros.

– A nossa rádio não dá essas coisas. – acrescentavam alguns.

– Isso é lá da vida de cada um. Quem é que quer saber disso? – questionavam outros.

– Não se trata da vida da Bárbara e do Manuel. É a violência que está em causa.

– Mas isso é lá com eles!

– Não senhor! Nem pensar! Isso é um crime público!

– E se não fosse a Bárbara e o Manuel, também davas? Se fosse a Xica e o Zé, davas a notícia?

– Mas precisamente por serem figuras reconhecidas do público é que devemos dar.

– Até pelo facto de ela ter feito queixa devia servir de exemplo aos casos da Xica e do Zé. E de todas as Xicas e de todos os Zés.

– Mas devíamos dar sempre notícias destas? Tinhas a antena cheia dessas coisas.

– Claro, porque a sociedade acha que isso é banal, que é normal um homem bater numa mulher.

– Alguém acharia normal que a TSF desse uma coisa dessas na abertura do noticiário?

– Não tem que ser abertura.

– Isso é para o Correio da Manhã e para a TVI. Vende como pãezinhos quentes.

– Não se trata de vender ou não. Não tem a ver com audiências.

– Mas o que é que isso interessa ao “ouvinte TSF”?

– Não ao ouvinte TSF. Mas a qualquer ouvinte. Não há perfil classe e A. Há um crime, aqui.

– Bah, um crimezeco social. Cor-de-rosa. Interessa às cabeleireiras.

– Interessa às pessoas. À sociedade. É um problema social grave.

– Mas qual é o facto relevante?

– Haver um crime público. Praticado por uma pessoa pública. Contra outra pessoa pública. Não chega?

– Não sabes se se confirma. Pode ser mentira. E quê, usas o “alegadamente” e já está?

– Não. A questão é antes dessa. O primeiro passo é saber se vale a pena ou não confirmar a notícia. O facto, por si só, é relevante. Não é por ser a Bárbara ou o Manuel. Repito: um crime público. Praticado por uma pessoa pública. Contra outra pessoa pública.

 

A discussão na redacção manteve-se. Não demos a notícia. Mas foi bom discuti-la. 

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