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O darwinismo social está mais vivo do que nunca. Ou és o melhor ou morres. Sendo que o conceito de “o melhor” é altamente subjectivo. Podes ser o melhor a engraxar o chefe e assim serás verdadeiramente “o melhor”. Se fores o melhor a trabalhar e incomodares o chefe, serás “o pior” – o verme a extinguir, o cancro que prejudica a evolução dos melhores.

Os melhores são os mais capazes. E, nestes novos tempos de darwinismo social, os melhores sobrevivem sempre. Saem sempre bem. Por cima. Em cima dos outros.

Os darwinistas sociais estão a liderar as organizações. Mas nunca ouviram sequer falar em Darwin. Ou terão ouvido vagamente. Porque nunca o estudaram, nem percebem o alcance. Porque nunca leram história, nem história social, nem sociologia, nem história económica, nem política social, nem políticas públicas, nem antropologia cultural, nem filosofia, nem psicologia social, nem sociologia urbana, nem demografia, nem ecologia, nem história das ideias políticas, nem direito, nem direito constitucional, nem direitos humanos, nem quaisquer outras ciências sociais. Porque isso não é ensinado nos MBA’s (os que os têm, os que os compraram).

Os darwinistas sociais que estão a liderar as organizações e a sociedade não têm a noção de que a luta pela sobrevivência individualista vai matar a própria sociedade. Não sabem porque não páram para pensar no que estão a fazer. Não sabem que por detrás da competição individualista estão tiques de autoritarismo e de deriva anti-social, que podem culminar numa luta extrema pela sobrevivência. No limite, há-de matá-los também.

Os darwinistas sociais não querem pensar nas consequências dos seus actos. Pensar fá-los perder tempo. Não querem perder tempo no que pode estar para vir. Porque acham que os fracos nunca vão ter força para os derrubar. Os fracos, mesmo muitos, não constituem ameaça. Porque dos fracos, pensam eles, não reza a história. Mas os fracos são cada vez mais. E eles não sabem disso, porque não páram para pensar.

Os darwinistas sociais fazem o seu trabalho. Limpinho. O das saídas limpas ou o das negociações sujas. O que interessa é fazer o que tem que ser feito. Com dor, reconhecem falsamente combalidos, mas é o que tem que ser feito. Não se incomodam com os que ficam pelo caminho. Mesmo sendo pessoas. Porque os que ficam pelo caminho são os fracos.

A sociedade não quer saber dos fracos. Os darwinistas sociais estão de consciência tranquila. Fizeram o que tinha de ser feito. Fazem o que tem de ser feito. Se a natureza não elimina os fracos por si só, nós os fortes fazemos o que tem de ser feito. Seus fracos, orientem-se. Façam-se à vida. Morram. Longe.

 

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Sebastião Salgado - TrabalhoHoje, 1º Maio, em Istambul, a polícia de choque, com canhões de água e gás lacrimogéneo, reprimiu milhares de trabalhadores turcos que, ao apelo das suas centrais sindicais, quiseram realizar a sua manifestação do 1º Maio na emblemática Praça Taksim, que tem sido o palco principal de grandes movimentos populares contra a governação autoritária do governo islamista de Erdogan (ver notícia aqui).  Este governo tinha proibido os sindicatos de utilizarem a Praça Taksim no 1º Maio, mas estes consideraram essa decisão ilegítima e decidiram corajosamente enfrentar a proibição.

Vale a pena lembrar que já em 1976 centenas de milhar de trabalhadores turcos conseguiram celebrar o 1º Maio na Praça Taksim, mas que no ano seguinte, quando meio milhão aí voltou naquela data, foi alvo de uma violentíssima repressão, que causou 37 mortos. Ninguém foi julgado por tamanho crime e durante décadas o governo turco proibiu a celebração do 1º Maio nesta praça. Sempre que ali se realizaram manifestações, houve repressão. Como também sucedeu o ano passado, com muitos feridos.
Com a manifestação deste ano, as centrais sindicais DISK e KESK e as organizações dos médicos e engenheiros pretendiam também homenagear os mártires do 1º Maio de 1977 na Praça Taksim e afirmar direitos democráticos básicos.

A resposta brutal do AKP de Erdogan e a história recente da celebração do 1º Maio na Turquia lembra-nos mais uma vez que os direitos laborais, sociais e políticos conquistados podem ser retirados. Que é preciso uma forte unidade na acção dos trabalhadores e uma forte incorporação e reconhecimento social desses direitos numa cidadania activa e alargada. Que a recuperação dos direitos perdidos é um processo doloroso e muitas vezes prolongado. E que sem uma passagem de testemunho eficaz desses direitos para as gerações seguintes, a sua perenidade está sempre comprometida.

Essa lição, em circunstâncias diferentes, estamos também a aprendê-la por cá. Felizmente com o direito conquistado, exercido e mantido de na rua celebrarmos o 1º Maio.

 

 

 

vieira da silva, a poesia está na ruaSim, é verdade, temos uma permanente dívida de gratidão para com os militares que se levantaram do chão no 25 de Abril de 1974 e que tomaram a iniciativa de derrubar uma ditadura de 48 anos e de pôr fim à guerra colonial. O Largo do Carmo cheio hoje de manhã, ao apelo da Associação 25 de Abril, homenageando Salgueiro Maia e todos os militares de Abril, foi a merecida resposta popular aos que os quiseram remeter para uma inofensiva galeria no 40º aniversário da revolução.

Mais espantoso (ou sinal dos tempos) é todavia o esquecimento generalizado de que o levantamento militar só teve sucesso porque foi logo apoiado por um poderoso levantamento popular que no Largo do Carmo e de Norte a Sul de Portugal, recusou ficar em casa, soltou amarras, quebrou barreiras, tomou as ruas, correu com o poder fascista e converteu o que poderia ser um golpe militar de incerto futuro numa revolução libertadora.

Foi esta aliança entre o povo e o MFA, pelos vistos memória incómoda e causa de urticária para alguns, que esteve na origem da mais notável, original e criativa revolução europeia da segunda metade do século XX. Que foi muito mais do que a “transição” por alguns desejada.

Olha-se para a imprensa de hoje, e é dominante o esforço de ignorar (ou excluir) das análises e testemunhos os obreiros do activismo cidadão, sindical e social que impulsionou o levantamento popular e o processo transformador e participativo que se seguiu. De facto, a direita que no poder vem ajustando contas com  esse “dia inicial inteiro e limpo”, bem gostaria que ele se tivesse resumido a uma conveniente “transição”. E que há de mais conveniente para garantir o seu futuro do que reduzir o 25 de Abril a um golpe militar e apagar o movimento e o levantamento popular que pariu a maior manifestação de sempre em Portugal, o 1º Maio de 1974?

Tem por isso razão Jerónimo de Sousa quando hoje lembrou, na sua intervenção na sessão solene do parlamento que “sem iniciativa popular o movimento militar não venceria tal como o movimento popular sozinho não teria êxito”. 

A celebração popular nas ruas dos 40 anos da revolução fica então como o testemunho e a vontade de muitos de que não será apagada a memória verdadeira e completa desse “dia inicial inteiro e limpo”. Memória que é alicerce para conquistarmos um amanhã que seja também “inteiro e limpo”.

 

 

 

 

 

Cartaz 40º aniversário do 25 de Abril (Associação 25 de Abril).  Autores: Júlio Pomar e Henrique Cayatte

Cartaz 40º aniversário do 25 de Abril (Associação 25 de Abril).
Autores: Júlio Pomar e Henrique Cayatte

 

Um cartaz inteiro e limpo.

Repleto de memória.

Sem gota de saudade.

Que nos convoca e interroga.

Que fazer hoje?

 

 

 

 

 


 

 

 

 

…Ontem, ao ouvir as buzinadelas, pensava em quantos adeptos deste ou de outro clube, loucos de alegria pelo resultado de um jogo que em nada modificaria a sua vida, estariam dispostos a sair à rua para defender o aumento do salário mínimo, o aumento das pensões, o fim das propinas ou o pleno emprego. Quantas dessas pessoas seriam capazes de vir para as ruas exigir o  fim da pobreza? Quantas dessas pessoas viriam para a rua indignadas pelos milhares de crianças que passam fome? Quantas dessas pessoas viriam para a rua exigir um combate eficaz à corrupção e uma justiça igual para todos? Quantas viriam defender uma escola pública de qualidade? Quantas destas pessoas virão para a rua no 25 de Abril gritar que não esquecemos a liberdade? Quantas dessas pessoas irão votar nas eleições europeias? Quantas irão votar nas legislativas? E quantas irão votar nos mesmos que hoje os condenam a eles à pobreza e os seus fi lhos à ignorância? Para que lhes serve este feroz orgulho de grupo e esta embriaguez selvagem da vitória se, nos momentos que importam realmente, irão baixar o pescoço onde se irá pousar a canga?

Em “O Jogo da Banca e da Bancada”, José Vítor Malheiros, no Público de hoje (texto completo aqui)

Era uma pessoa sozinha. Pelo menos, estava sozinha esta noite. Atravessou, muito devagar, a estrada até meio. Parou no separador central junto a uns arbustos da sua altura. 

Reparei nela quando espreitei a rua da minha janela, já perto da meia-noite. Estava frio e estava a chover. A pessoa sozinha ficou parada no pedaço de terreno que separa os dois sentidos da estrada. A pessoa não se mexia. Pensei que estivesse simplesmente à espera que os carros a deixassem atravessar a outra metade da estrada que lhe faltava. Mas não havia carros, nem para um lado nem para outro. E a pessoa ali estava, parada. Sozinha. De pé, a meio da estrada. Junto ao separador. Como um arbusto de pé. Com raízes na lama fria. 

Vestia um casaco escuro, talvez negro, com um capucho que lhe tapava a testa e quase os olhos. Usava umas calças escuras e trazia calçados uns sapatos também escuros, talvez botas. O seu corpo encharcado, na noite escura, confundia-se com os arbustos molhados. Nenhum carro passou. A pessoa sozinha não atravessava porque não queria. Ali ficou uns minutos, não sei bem quantos.  

Não consegui afastar-me da janela. Os vidros embaciavam com as minhas interrogações: quem é esta pessoa, por que está sozinha, por que está à chuva, por que não atravessa, por que não se abriga, por que não corre para o telheiro, o que espera, o que pensa, que lhe ocorre, o que lhe passou, quem é, que vida tem, o que precisa, quererá estar sozinha… 

Os arbustos eram a sua única companhia. Até a chuva parecia estar espantada… Amaciou ligeiramente. 

As luzes amarelas de dois faróis. Passou um carro devagar. Não viu a pessoa sozinha, nem sequer abrandou. Talvez a tivesse salpicado mais ainda. Limpei o vidro embaciado da janela, pois não conseguia ver com nitidez. Pareceu-me ver algum movimento junto aos arbustos. Sim, a pessoa sozinha moveu-se um pouco. Deu um passo. E outro. Aproximou-se da estrada. Ajeitou o capucho com a mão direita, olhou para o fundo da estrada, confirmou que não vinha ninguém e atravessou. A pessoa quase não andava. Arrastava os pés. Devagar, devagar, devagar. À chuva, de cabeça em baixo.  

A pessoa sozinha trazia um saco de plástico enrolado na mão esquerda. Devia ter alguma coisa lá dentro, documentos, a carteira talvez. Não sei. O saco cobria algo que era pouco maior que a sua mão. Deslocou-se lentamente, encharcada, à chuva até pisar o passeio no lado de cá. Estava a uns trinta metros da minha janela. Num impulso abri a janela e pensei gritar-lhe para perguntar se precisava de ajuda. A pessoa sozinha seguia de cabeça baixa.  

Com a janela aberta o silêncio fresco da noite entrou-me em casa. E com a chuva sustida, reprimida de espanto, ouvi a pessoa sozinha a chorar. Mas era um choro sem igual. Um chorar violento, um gemido que era uma lâmina, uma dor vulcânica, lágrimas de lava, um chorar ardente de alma toda. Não há choro maior que o choro de alma toda. A pessoa sozinha desabava à chuva. Desmoronava-se.

Há dores que não cabem no peito de uma pessoa sozinha.

 

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cartaz conferencia 5 AbrilUm conjunto de 19 organizações sindicais não filiadas e filiadas na CGTP-IN e na UGT decidiram juntar forças e organizar no próximo dia 5 de Abril (sábado), a partir das 9.30 horas da manhã, no Auditório Camões – Escola Secundária Camões (Rua Almirante Barroso, 25 B, junto à Praça José Fontana e perto do metro Picoas) uma conferência Em Defesa da Segurança Social Pública: a Questão das Pensões.

 Como referem os organizadores no texto de apresentação da iniciativa, “o Estado Social e o sistema público de pensões da Segurança Social não são um fardo para a sociedade, para o Estado e para as futuras gerações. São parte do contrato social de uma sociedade democrática apostada em assegurar a protecção dos cidadãos, a equidade e a redução da desigualdade e da pobreza.

A iniciativa é aberta à participação “de todos os interessados no debate dos caminhos e propostas para assegurar uma Segurança Social pública robusta e com futuro” preferencialmente mediante inscrição que pode ser feita na página web da conferênciawww.pensoes.blogspot.pt . Esta conferência, como afirmam, é“um testemunho da necessária unidade na acção, construída no debate de ideias e na convergência por objectivos comuns, para a defesa do Estado Social e do sistema público de pensões como componente essencial da democracia”. E como componente essencial, acrescentamos, de uma verdadeira política de desenvolvimento para o nosso país.

Os sinais publicitados nos últimos dias sobre um novo e mais gravoso ataque em preparação pelo governo contra o sistema público de pensões reforçam a oportunidade e o interesse de juntos construirmos uma defesa cidadã esclarecida e solidária sobre o nosso sistema de segurança social pública, conquistado e construído a partir do 25 de Abril e agora sujeito ao mais violento ataque em nome desta austeridade que nos empobrece, compromete o nosso futuro e degrada a democracia.

Esta iniciativa, como outras, inscreve-se no esforço colectivo de retirar decididamente o monopólio público do debate sobre a Segurança Social aos habituais arautos situacionistas da desgraça e das inevitabilidades, que sempre nos pregam a conhecida narrativa da insustentabilidade, e assim abrir caminho a um debate informado, plural e aberto sobre as políticas públicas capazes de assegurar o presente e o futuro do Estado Social.

É bem-vindo este testemunho de organizações sindicais que souberam superar barreiras e fronteiras para tentar construir um caminho e ideias comuns numa matéria decisiva para o nosso bem-estar e o nosso futuro colectivo.