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Paulo Portas é o mais experiente político do Governo. Passos Coelho, que também anda pela política desde muito novo, não tem a experiência política de Portas. Nem a matreirice. Nem a estratégia. Nem nunca deve ter lido um único livro sobre estratégia política. Ou sequer pensado que há características em tempos de “guerra”, como a dissimulação, o segredo, a surpresa, o silêncio, o pensar a dois tempos, a paciência, como nos ensina Sun Tzu em “A Arte da Guerra”, que são determinantes não apenas para a sobrevivência [política] mas para alcançar a vitória.

 

Viver em coligação, diz-nos qualquer manual básico de ciência política e diz-nos sobretudo a realidade, é viver em permanente estado de tensão, com forças centrífugas e centrípetas constantes. É uma acção de gerir conflitos, um estado de alerta, um estado de guerra. É estarem vários homens numa trincheira com apenas uma lata de sardinha por dia e em que todos têm de vigiar simultaneamente o inimigo lá fora e o precioso enlatado até à próxima refeição.

 

Quando a desconfiança entre os homens no interior da trincheira aumenta à medida que vão passando os dias, e perante a falta de ataques violentos do exterior, o ambiente no interior da caverna pode tornar-se aterrador. O instinto de sobrevivência agudiza-se. As lutas na caverna assumem uma dimensão sanguinária, por vezes fratricida, porque enquanto ao inimigo só o vêem esporadicamente, os entrincheirados convivem 24 horas por dia. A convivência pode tornar-se verdadeiramente insuportável.

 

As desconfianças são permanentes. O que fica de vigia, à noite, distrai-se a olhar para a lata de sardinhas e imagina o que faria com ela sem ter de a partilhar com os outros. Os outros, que supostamente deviam estar a dormir, ficam despertos por desconfiarem que o vigilante possa atacar o gourmet sozinho. Afinal, ninguém descansa pelo estado de alerta permanente e a percepção do risco interno assume dimensões gigantescas. O inimigo externo – que devia ser, afinal, o único e verdadeiro inimigo – circula à vontade no terreno e reorganiza-se sem que dentro da caverna essa mudança seja nítida. 

 

A coligação deste Governo não vai cair por causa das taxas sobre as pensões, a chamada TSU dos pensionistas. Vai cair porque todos desconfiam que Paulo Portas vai comer a lata de sardinhas sozinho.

 

A novela agora desenrolada em torno da folha de Excel de Rogoff e Reinhart que afinal estava errada, e que serviu a Gaspar, Coelho & Portas para brandir a cientificidade da sua via para o empobrecimento português, pôs a nu como afinal a austeridade era uma escolha política e não uma necessidade. Como sublinha Krugman no seu artigo no El Pais (ver aqui).

Escolha política dos ultraliberais e fundamentalistas dos mercados. Que assim espreitaram o furo de vender de modo mais credível a destruição do Estado Social e a desvalorização do trabalho como o caminho penitente das pedras que nos há-de conduzir ao paraíso, enquanto assegura na terra uma longa e rendosa vida ao capital financeiro. Sim, eles estão na Goldman Sachs, mas também no BCE, no FMI, na União Europeia e nos governos.

Afinal, é preciso que a economia de casino não pare, sangrando embora a economia real e as pessoas. Foi assim que mais 3 000 (três mil) milhões de euros voaram nas empresas públicas. Que não foram gastos na qualificação dos serviços públicos que prestam, mas se perderam em produtos financeiros de alto risco e de natureza especulativa (ver aqui). Pela mão de alguns dos actuais governantes, enquanto administradores e responsáveis dessas empresas. Entretanto, despedem-se trabalhadores e elevam-se os tarifários e os passos sociais dos transportes, pondo em causa o serviço público.

Escolhas políticas: eis a chave. Políticas para servir as pessoas, ou para sangrar as pessoas em benefício dos mercados. A escolha também é nossa.

Lisboa, 18 de Março de 2013

Sua Excelência Li Keqiang, Primeiro-Ministro do Conselho de Estado da República Popular da China

Excelência,

Quero em nome do Governo de Portugal no meu próprio apresentar a Vossa Excelência sinceras felicitações pela sua eleição para o cargo de Primeiro-Ministro da República Popular da China formulando os votos de maiores êxitos para o mandato que agora vai iniciar.

Em poucas décadas a China tem operado transformações de enorme alcance a uma velocidade inédita. Os resultados positivos desta transformação são o maior testemunho da capacidade do Povo chinês e dos seus líderes que, num breve espaço de tempo, quiseram e souberam modernizar seu país e promover sua prosperidade coletiva.

Os trabalhos do Congresso Nacional Popular, que agora terminaram, indicaram de forma clara e consensual as grandes orientações programáticas colectivas os seus objetivos fundamentais. Entre elas contam-se importantes medidas socializantes visando o bem-estar dos cidadãos, a criação de emprego, o robustecimento das redes de segurança social e ainda o fortalecimento da economia.

O processo de modernização em curso na China tem tido um efeito muito positivo nas nossas relações bilaterais abrindo novas vias de diversificação e de aprofundamento numa interação mutuamente benéfica e equilibrada.

Nos últimos anos, assistiu-se efetivamente ao reforço da colaboração entre Portugal e a China, à crescente penetração comercial das nossas respectivas empresas e a um diálogo cada vez mais frutífero. Acresce que os investimentos chineses têm singularizado Portugal como parceiro privilegiado de Pequim, potenciado novas oportunidades, quer nos nossos respetivos países, quer através de parcerias, em países terceiros.

Logrou-se, acima de tudo, um grande despertar, tanto em Portugal como na China, para o potencial das nossas relações que hoje progridem por novos domínios como a colaboração científica e a inovação tecnológica, atestando sua modernidade dinamismo.

Tenho a convicção de que os contactos de alto nível continuarão desempenhar um papel importante no desenvolvimento da nossa amizade cooperação. Nesse sentido, aproveitaria esta ocasião para renovar o convite efectuado por carta de 27 Junho passado colocando-me à disposição de Vossa Excelência para o receber em Portugal e reiterar minha disponibilidade para efetuar uma deslocação a Pequim num momento que seja considerado oportuno.

Aproveito a oportunidade para renovar a Vossa Excelência a expressão da minha elevada estima e consideração.

Pedro Passos Coelho

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“Constatámos ainda que o PS se distingue dos demais partidos políticos por privilegiar a escolha de membros que tenham currículo político, uma vez que 66% dos juízes que indicou para o Tribunal Constitucional são politicamente experientes.”

 

In “Papel Político do Tribunal Constitucional: contributos para o estudo do TC, seu papel político e politização do comportamento judicial em Portugal”, de Ana Catarina Santos. Prefácio de António de Araújo. Coimbra Editora.

 

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O Natal já passou e o Cirque du Soleil, que costuma brindar os portugueses com espectáculos natalícios, já lá vai. Mas as acrobacias voltaram a Lisboa lá para os lados de Belém. Aníbal fez “A” acrobacia-mor. Nenhum elenco com mais de cinquenta artistas e músicos de 17 países diferentes conseguia o que Aníbal conseguiu.

 

Aníbal ia fazer o maior número de Synchro Trapeze de sempre, mas nem por isso estava nervoso naquele fim-de-tarde de sexta-feira. Agarrou-se ao trapézio, tomou balanço e, com uma roupa extravagante que lhe aumentava confiança, saltou de um baloiço para o outro, qual trapezista oriental.

 

Voando entre as mãos estendidas dos outros que o miravam nos baloiços de corda, Cavaco enrolou-se numa múltipla pirueta a 18 metros do chão, número muito arricado mesmo para um saltador experiente. Seguiu-se um encarpado de pernas flectidas sincronizado ao ritmo da música que lhe dá alento e voou em espectaculares cambalhotas, piruetas e flic-flacs, até aterrar numa barra estreita num equilíbrio que só um grande artista consegue alcançar.

 

Assim que os pés do Mestre de Synchro Trapeze pousaram na barra, pés e mãos em “V”, Aníbal culmina a sua piruetada mágica sacando de um cartaz que rapidamente ergueu em cima da cabeça coberta de brilhantina. Num néon luminoso lia-se a seguinte frase: «é “da” em vez de “de”».

 

O público hesitou, não compreendeu bem o que quis transmitir. Mas logo uma parte da plateia começou a gritar “muito bem, muito bem”! Outros aplaudiram. Alguns perguntaram “mas de onde é que ele sacou aquilo?”

 

Para estupefacção até dos próprios treinadores e família, Aníbal tinha surpreendido com o número daquela tarde.

 

No final do espectáculo, o Synchro Trapeze Master não quis dar entrevistas nem sequer autógrafos aos seus fãs.

 

Escreveu, nessa noite, um curto post no Facebook. Apenas a frase: “I’m DA Master! Lol!”.

 

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Os omnipresentes mercados tremem. Os juros da dívida dos países periféricos sobem. As bolsas caem. As lideranças políticas e as instituições europeias não percebem a ingratidão dos italianos que não votaram segundo os seus conselhos (ver os resultados eleitorais aqui).

Não se faz isto ao Monti, apóstolo da austeridade que se sacrificou pela pátria. E o centro-esquerda, que o apoiou na governação e se comprometera com a austeridade, até prometia portar-se mais ou menos bem, não sair da linha e afastar um incómodo Berlusconi que já era uma carta gasta.

Pois é. Mas um povo farto de políticas de austeridade e revoltado com uma representação e um sistema político desacreditados resolveu fazer outras escolhas. E não se diga que foi a abstenção que ganhou. Não foi assim em Itália. Votaram mais de 35 milhões de cidadãos em quase 47 milhões de eleitores registados (75%). Uma participação bem superior à que se vem praticando por cá: 58% nas últimas eleições legislativas.

O Partido Democrático e a sua coligação de centro-esquerda Itália.Bem Comum  tiveram 29,5% dos votos e uma queda de 8 pontos percentuais relativamente às anteriores eleições. A segunda força mais votada, a coligação da direita de Berlusconi (o Povo da Liberdade) renasceu sustentada pelo seu monopólio mediático e colheu 29,1% dos votos, embora com uma  queda de 17,7 pontos percentuais na votação. Beppe Grillo e o seu Movimento 5 Estrelas, criado em 2009, colheu um quarto dos votos (8,7 milhões de votantes e 25,5% dos votos) e tornou-se o primeiro partido italiano individualmente considerado em expressão eleitoral – o PD conseguiu isoladamente apenas 25,4% e o partido de Berlusconi sozinho teve 21,6%. Monti e a sua coligação de centro-direita ficaram em quarto lugar, apenas com 10,5% dos votos.

E a esquerda italiana, como está e por onde andou nestas eleições?

Esquerda Ecologia e Liberdade, liderada por Nichi Vendola, que se associou à coligação de centro-esquerda do PD e por isso elegeu 37 deputados, colheu pouco mais de um milhão de votos (3,2%). A Revolução Cidadã, constituída apenas em Dezembro unindo a Itália dos Valores, o Partido da Refundação Comunista, o Partido dos Comunistas Italianos, a Federação dos Verdes e o Movimento Laranja, liderada por um juiz prestigiado (Antonio Ingroia), não atingiu o limiar de 4% imposto pela lei eleitoral para eleger deputados e ficou-se pelos 765 000 votos (2,25%). Não foi ainda desta vez que os comunistas voltaram ao parlamento italiano e que recuperaram  as forças perdidas para se afirmarem como parte de uma alternativa credível à esquerda.

Ou seja: está à vista que os italianos não fizeram a escolha clara de uma alternativa política. Mas deram um sinal expressivo nestas eleições da rejeição popular crescente das elites políticas que conduziram o país à degradação do sistema político, à corrupção, ao empobrecimento e à desigualdades actuais. Com doses sucessivas de austeridade e destruição de direitos sociais. Sempre protegendo os privilégios e a fortuna dos mesmos.

Não se reduza porém o Movimento 5 Estrelas de Beppe Grillo a uma episódica manifestação de populismo. Exprime com os seus quase nove milhões de votantes uma vontade de mudança e de ruptura com o caminho que tem sido seguido. Com expressões anti-sindicais, anti-políticas e anti-partidos. Mais eficaz na aglutinação do protesto do que na afirmação de um programa alternativo consistente e credível. Todavia portador de propostas e aspirações populares para levar a sério (ver o seu programa aqui) como a defesa da água como bem público, da escola pública, de um serviço nacional de saúde gratuito e universal, de medidas reais de democracia participativa, de regeneração do sistema político.

O movimento político de Beppe Grillo é um sério aviso às esquerdas e aos sindicatos. Polariza o voto de  protesto contra o fracasso de um Estado capturado pela corrupção e pelos grandes interesses. Joga também o jogo perigoso (por cá também praticado pela direita) de querer substituir as oposições e conflitos de classe e a exploração do trabalho pela divisão em dois blocos sociais – os que estariam instalados nos seus direitos sociais, nos sindicatos e partidos, e os que vivem uma existência precária – querendo assumir-se como representantes destes últimos contra os primeiros. Recusando afirmar-se de direita ou de esquerda, alimenta-se da incapacidade das esquerdas em Itália em produzirem alternativas consistentes, renovadas, credíveis e mobilizadoras ao pântano populista de Berlusconi e ao comando neoliberal da União Europeia.

Tem que ser assim por cá? Não há outro caminho se não este,  além da alternância na austeridade, com ou sem “consciência social”? Houve na Grécia, onde o Syriza conseguiu polarizar  e fazer convergir a maioria das esquerdas, conquistar apoio social e tornar-se a segunda maior força política eleitoral com um programa político alternativo de governação contra a austeridade. Sem que o caminho português tenha que ser uma cópia da estrada grega, também pode haver respostas e futuro do lado das esquerdas por cá.

É mais que tempo, para isso, que se abandonem torres de marfim instaladas e se assuma que os desafios desta crise política, económica e social são maiores do que as forças de cada um e que enfrentá-los exige juntar forças e assumir encargos comuns, não apenas na oposição mas na capacidade assumida de governação. Que é imperativo e urgente a vontade de convergência numa resposta política e programática conjunta que afirme a credibilidade de uma alternativa de governação a esta receita austeritária e à tragédia de um país convertido em protectorado em nome do garrote da dívida. Que iniciativas como o Congresso Democrático das Alternativas, a Iniciativa par a uma Auditoria Cidadã à Dívida Pública e outros projectos cidadãos são para levar a sério na vontade de convergência e de construção de políticas alternativas que exprimem. Que já basta de gerir as diferenças políticas à esquerda como se estivéssemos num estado de normal vida política democrática e não num estado de excepção que nunca enfrentámos em 38 anos de democracia. Nem em Portugal nem na Europa.

The times they are a-changin’como canta Bob Dylan. Todos somos responsáveis por procurar as respostas que impeçam o retrocesso civilizacional em marcha em Portugal e na Europa. Como ele também canta, the answer  my friend is blowin’ in the wind

Sem abdicar de convicções e escolhas claras, procuremos então as respostas novas e as alternativas no vento. Nos outros. Na rua. Juntando forças, vontades e ideias. Sem muros. Para que não vença a estratégia do medo que atira cada um para o seu buraco de sobrevivência e à maioria para fora da política e da democracia. E no dia 2 Março lá nos encontraremos para dar força à esperança.


Solta a GrândolaComo diz José Vítor Malheiros na sua habitual crónica no Público de hoje - A rua é a única saída:

Perante um PSD e um CDS que destroçam o país de alfinete ao peito (desconfie-se sempre do patriotismo de lapela) e de um PS que treme de medo perante a Grândola, que esquece as liberdades que já defendeu, que faz coro com os colaboracionistas da troika eprotege os políticos das negociatas, perante uma esquerda que hesita no seu dever de unidade, não há outra coisa a fazer senão sair à rua e cantar a Grândola a plenos pulmões. A rua é a única saída que resta. Que ninguém diga que nos calámos. 

A esperança também mora na rua. Tem encontro marcado em 2 Março.

E que por um momento as ruas e praças do país que querem privatizar sejam zonas livres dos mercados financeiros que aspiram a capturar as nossas vidas.

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